Governo de Cristina planeja agora criar IOF

Novo imposto afetaria principalmente a classe média, que se uniu aos ruralistas nos protestos contra a presidente

Ariel Palacios, BUENOS AIRES, O Estadao de S.Paulo

20 de junho de 2008 | 00h00

A presidente argentina, Cristina Kirchner, que ontem completou cem dias de conflito com o setor rural, agora pretende se voltar contra a rebelde classe média, que desde março realizou diversos panelaços contra seu governo. Circunstancial aliada dos ruralistas nos protestos dos últimos três meses - e persistente eleitora da oposição -, a classe média pode ser alvo de um imposto sobre operações financeiras (IOF). Nos últimos dias, esse setor da sociedade foi constantemente criticado pela presidente.A intenção de criar o imposto - o que, segundo fontes do mercado, já está levando correntistas a cancelar aplicações de renda fixa e comprar dólares - foi revelada pelo chefe do gabinete de ministros, Alberto Fernández, braço direito da presidente na área política. "Há assuntos pontuais sobre os quais deveríamos trabalhar. Por exemplo, a questão da renda financeira", disse Fernández em entrevista coletiva. Horas depois, ele negou que o governo analise tal medida. "É um delírio", disse. Mas causou mais temores ao acrescentar: "Será preciso ver o momento e as condições." Suas explicações não convenceram a comunidade financeira portenha, que prevê que até o fim do ano o governo adote o tributo. O novo imposto seria utilizado pelo governo para compensar as perdas em arrecadação tributária que teve desde março por causa do conflito com os ruralistas e da conseqüente paralisação de vários setores da economia.O alvo desse imposto seriam os moradores das grandes cidades argentinas, especialmente os de Buenos Aires, tradicional reduto antiperonista. Desde 1946, os portenhos só deram a vitória ao Partido Justicialista (peronista), de Kirchner, em uma eleição (a parlamentar de 1993). Em todas as outras, os peronistas nunca conseguiram conquistar os corações e mentes dos moradores da capital. ?NAZISTAS?Em outra declaração polêmica, Fernández definiu como "nazistas" os líderes ruralistas. O chefe do gabinete acusou os produtores agrícolas de utilizar métodos similares aos dos nazistas para pressionar congressistas a votar contra o projeto de lei do governo que impõe altos impostos sobre as exportações de produtos agropecuários.As declarações foram feitas pouco depois que os líderes ruralistas anunciaram que neste fim de semana começarão a reunir-se com deputados e senadores para convencê-los a votar contra o projeto. Congressistas de províncias agrícolas que estejam a favor dos impostos serão alvo de "escraches" (manifestações personalizadas, diante da casa dos alvos dos protestos). "Isso é espantoso, coisa de nazistas", disse Fernández.O projeto de lei será encaminhado na semana que vem às comissões da Câmara, que depois marcarão a data da votação. Num recuo, o ministro da Justiça, Aníbal Fernández, afirmou que o projeto do governo "é passível de modificações, ele não está blindado". Na véspera, ele tinha dito que a proposta só poderia ser aprovada ou rejeitada em sua totalidade, sem alterações. Analistas políticos afirmam que o desenlace mais provável é que o Congresso aprove uma lei de consenso, eqüidistante das exigências dos ruralistas e das ambições de Cristina.Ontem o prefeito da capital, Mauricio Macri (opositor de Cristina), também foi alvo de protesto. Centenas de taxistas bloquearam ruas para protestar contra o plano de criar, nas principais avenidas, faixas exclusivas para transporte público.

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