Governo de Evo põe Exército em alerta

Segundo Defesa, militares estão prontos para proteger propriedade pública e privada em regiões que exigem autonomia

Ruth Costas, SANTA CRUZ DE LA SIERRA, BOLÍVIA, O Estadao de S.Paulo

14 de dezembro de 2007 | 00h00

Às vésperas da planejada declaração de autonomia de quatro regiões da Bolívia, o governo boliviano decretou estado de alerta nas Forças Armadas e centenas de policiais começaram a tomar posições no Departamento (Estado) de Santa Cruz. O objetivo, segundo o ministro de Defesa, Walker San Miguel, é defender a propriedade pública e privada nessas regiões, comandadas pela oposição. "Não ordenamos o deslocamento de tropas para Santa Cruz, mas estamos muito atentos e preocupados com o que está acontecendo no país", disse o ministro, acrescentando que a responsabilidade pela segurança nos próximos dias, a princípio, será da polícia. Capital do mais rico departamento boliviano e principal reduto da oposição, Santa Cruz de la Sierra recebeu ontem pelo menos 400 policiais vindos de Cochabamba. Nas ruas, a impressão era a de que a presença militar era maior. Circularam pela cidade durante todo o dia caminhões apinhados de forças de segurança oficiais.No centro, alguns carregavam armas de maneira ostensiva. Segundo denúncias do governador Rubén Costas, mais de 3 mil militares estariam no Departamento de Cochabamba prontos para entrar em Santa Cruz. "Se eles militarizarem a cidade, certamente haverá uma reação", disse Costas ao Estado. "Isso não nos surpreenderia, dado o caráter totalitário que está ganhando o governo do presidente Evo Morales." La Paz afirma que tais declarações são "irresponsáveis" e têm como objetivo causar pânico no Departamento de Santa Cruz. O porta-voz da presidência boliviana, Alex Contreras, também negou qualquer plano para prender os governadores dos departamentos opositores ou decretar estado de sítio, como havia denunciado o presidente do Comitê Cívico de Santa Cruz, Branko Marinkovic. Os Departamentos de Santa Cruz, Tarija, Beni e Pando pretendem declarar autonomia em relação a La Paz amanhã. A idéia é que essas regiões tenham mais controle sobre impostos e recursos naturais. A demanda é uma reivindicação antiga desses departamentos. Os quatro resolveram tomar medidas drásticas depois que parlamentares governistas aprovaram uma nova Constituição para o país utilizando uma polêmica manobra política no domingo.A nova Carta reconhece as autonomias departamentais, mas também fala em autonomias indígenas, municipais e regionais, sem ser específica sobre nenhuma delas - o que, para os líderes regionais, significa que não haverá nenhuma mudança na prática. Autoridades de Santa Cruz discutiam ontem os últimos detalhes do estatuto de autonomia - espécie de Constituição regional - que será apresentado no sábado à população. Para dar legitimidade ao documento, o presidente da Assembléia Autonômica, Pablo Kinsky, disse que serão coletadas assinaturas para convocar um referendo. Até ontem, alguns líderes regionais diziam que a aprovação seria feita amanhã mesmo, num "cabildo" - reunião de milhares de pessoas, que aprovam o texto por aclamação. Em La Paz, Evo qualificou o estatuto de "ilegal". Beni, Pando e Tarija já têm preparados documentos semelhantes. Todos eles ampliam os poderes dos governos regionais, que poderão administrar seu próprio orçamento e estabelecer políticas nas áreas de educação, cultura e saúde, entre outras atribuições. Em Santa Cruz, o estatuto também prevê uma polícia própria, que atuaria em cooperação com a nacional. Hoje todas as forças de segurança do país são subordinadas a La Paz."Até agora tínhamos mais carros alegóricos no carnaval do que viaturas da polícia", reclamava a dona de casa Arminda Arias, de 47 anos, que recolhia assinaturas ontem para um documento pedindo uma polícia local, em meio a centenas de pessoas que faziam greve de fome em protesto contra Evo na praça central de Santa Cruz. "Eles ameaçam mandar forças de segurança para cá só para nos reprimir, não para que estejamos mais seguros. É por isso que estamos tão revoltados."

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