Governo de Illinois na mira da Justiça

Procuradora do Estado entra com pedido na Suprema Corte para afastar do cargo governador acusado de corrupção

Eli Saslow, O Estadao de S.Paulo

13 de dezembro de 2008 | 00h00

A procuradora do Estado de Illinois, Lisa Madigan, pediu ontem que a Suprema Corte dos EUA remova temporariamente de seu cargo o governador Rod Blagojevich, preso há quatro dias sob acusação de tentar vender a vaga que era ocupada pelo presidente eleito, Barack Obama, no Senado.As acusações contra Blagojevich vieram à tona depois de dois anos de investigações do FBI, a polícia federal americana, que usou escutas telefônicas para flagrar o governador.Apesar da suposta ligação entre Obama e Blagojevich, o presidente eleito já vinha trabalhando havia muito tempo para se distanciar do governador. Com exceção dos apertos de mão obrigatórios em funerais ou eventos públicos, os dois não conversam há mais de um ano. Blagojevich raramente fez campanha para Obama e nunca fez discursos em comícios do candidato democrata.Apesar de terem ocupado o mesmo espaço político - dois jovens advogados em Chicago, dois homens influentes na estrutura de poder de Springfield, dois homens ambiciosos que sonhavam com a presidência - Obama e Blagojevich nunca simpatizaram um com o outro, disseram políticos de Illinois. Às vezes, eles usaram um ao outro para dar impulso a suas próprias carreiras, mas no âmbito particular agiam como rivais. Blagojevich considerava Obama ingênuo e pretensioso e desmerecia o seu sucesso, atrinuindo-o a "muita sorte". Obama fazia pouco de Blagojevich por causa da sua combatividade, sua desorganização e o seu hábito de chegar meia hora atrasado nos eventos oficiais.Amigos disseram que em circunstâncias diferentes, Obama poderia até ter certa satisfação ao ver Blagojevich algemado por supostamente tentar vender a cadeira que deixou vaga no Senado para quem fizesse a maior oferta. Mas apenas seis semanas depois da eleição de Obama para a presidência, o escândalo envolvendo Blagojevich é um lembrete desconcertante de que as origens políticas de ambos estão num Estado há muito marcado pela corrupção."Obama imaginou que isto poderia acontecer, e tomou o cuidado de não manter laços com o governador já há algum tempo", disse Abner Mikva, o ex-congressista e juiz do Tribunal de Apelações que foi mentor político de Obama em Chicago. "O governador foi talvez o único democrata ocupante de cargo público americano que não discursou na convenção do partido, e isso não aconteceu por acidente. Ele é politicamente tóxico.""Não se consegue sobreviver em Chicago a não ser que se saiba evitar esse tipo de gente, como fez Obama", lembrou Mikva. Mas Obama e Blagojevich compartilharam elementos da rede política de Chicago, e é por esse motivo que a equipe de transição presidencial de Obama viveu uma semana de grande desconforto. O seu principal assessor, David Axelrod, já foi assessor de Blagojevich. Antoin "Tony" Rezko, empreiteiro condenado em junho por fraude e lavagem de dinheiro, arrecadou dinheiro para ambos os políticos. Robert Blackwell Jr., amigo de Obama de longa data, participou da equipe de transição de Blagojevich no governo estadual. Blagojevich nomeou um dos confidentes mais próximos de Obama, Eric Whitaker, para o cargo de diretor do Departamento de Saúde Pública de Illinois. A ligação do presidente eleito com Blagojevich é emblemática da sua ascensão política em Chicago. Obama teve contato com a corrupção, mas raramente em primeira mão. Ele confiou no establishment quando precisou dele, mas manteve distância suficiente para ser visto como estranho neste meio."Não conheço muitas pessoas que demonstrem tamanha sensibilidade para detectar quem pode acabar as metendo em encrenca", disse Denny Jacobs, político aposentado de East Moline, Illinois, que se tornou amigo de Obama quando ambos serviram no Senado do Estado. "É como um sexto sentido. Chicago é uma bagunça, e Obama se viu metido nela. Mas soube distinguir as pessoas que poderiam prejudicá-lo e manchar sua imagem."

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