Governo de unidade no Quênia encerra longo impasse

População parece decepcionada com o tamanho do governo e o número de novos cargos criados

Jeffrey Gettleman, de The New York Times,

13 Abril 2008 | 18h05

Neste domingo, o presidente Mwai Kibaki anunciou um novo - e enorme - gabinete de governo de unidade nacional, encerrando semanas de um impasse que ameaçava mergulhar o Quênia, de novo, na violência.   Entenda o conflito no Quênia   O partido de Kibaki, que alguns observadores ocidentais acusaram de fraudar a eleição presidencial de dezembro, ficou com os ministérios mais poderosos, como o das finanças e das relações exteriores, mas o partido de oposição conseguiu alguns postos chave, incluindo o governo local e o ministério da agricultura. O principal líder da oposição, Raila Odinga, que alega ter vencido a eleição, foi apontado primeiro-ministro.   Os dois lados estavam sendo cada vez mais pressionados , especialmente pelos Estados Unidos, e pelos quenianos cada vez mais impacientes por um acordo que acabasse com a atmosfera venenosa e perigosa que tomou conta do país desde as controversas eleições de dezembro. Embora a votação, em si, tenha decorrido pacificamente, o país foi tomado por uma explosão de violência após a eleição, com os partidários do governo e da oposição se insurgindo violentamente uns contra os outros.   Mais de mil pessoas foram mortas, centenas de milhares ficaram desalojadas e a imagem do Quênia como um dos países mais promissores e estáveis da África ficou seriamente danificada. Em fevereiro, governo e oposição concordaram com uma divisão do poder, mas desde então vinham discutindo sobre quem ficaria com que cargo.   No domingo, Kibaki levou mais de dez minutos para ler a longa lista de nomes dos ministros e seus assistentes, num total de 94 pessoas, quase metade do Parlamento do país. Este é o maior gabinete de governo da história do Quênia.   Por causa de todas as manobras políticas e da necessidade de apaziguar os vários grupos de interesse, Kibaki criou vários postos novos, muito bem remunerados, como o de ministro do Desenvolvimento do Norte do Quênia e outras Terras Áridas. O que foi criticado abertamente, como inútil e perdulário, pelas organizações de comércio e grupos de direitos humanos, especialmente porque milhares de quenianos desalojados continuam vivendo em barracas.   Kibaki defendeu a ampliação do gabinete de governo como crucial para o desenvolvimento do Quênia.   "Vamos deixar a política de lado e começar a trabalhar", disse ele no domingo, em um discurso pela TV. "Vamos construir um novo Quênia, onde a justiça será nosso escudo e defensor e onde a paz, a liberdade e a abundância serão encontradas no país inteiro".   O partido de oposição mostrou-se decepcionado por não conseguir muitos dos postos de maior poder que desejava.   "Decidimos, porém, que o mais importante era ter um governo instalado", disse Salim Lone, porta-voz de Raila Odinga. "Existe muito caos, fome e insatisfação no país".   Essa insatisfação explodiu na semana passada, quando os partidários da oposição se amotinaram em várias cidades do Quênia, furiosos com o atraso na formação do novo governo. Para Salim Lone, foi essa explosão de cólera que agilizou o processo. "Houve uma pressão internacional por algum tempo, mas os distúrbios é que realmente nos obrigaram a refletir sobre como as coisas estavam frágeis", disse ele.   O gabinete de governo tem pela frente uma imensidão de desafios e necessidades. O Quênia, afinal, é um país relativamente pobre, com uma população que cresce velozmente, um espaço de terra que vem diminuindo e favelas explodindo. Além disso, a eleição presidencial provocou ressentimentos há muito tempo guardados sobre questões políticas e étnicas que dividiram o país. E há também o prejuízo econômico direito, provocado pelos enfrentamentos, com inúmeras casas, empresas, fábricas e escolas completamente destruídas pelos incêndios, uma queda da confiança do investidor e negócios, com os famosos safáris do Quênia, quase parados.   Portanto, não surpreende que muitos quenianos duvidem que o novo governo vá solucionar todos os problemas. Embora tenham exultado com o acordo firmado em fevereiro, com multidões festejando nas ruas, desta vez eles receberam a noticia mais calados, até mais céticos.   "Não acho que isso vai durar muito", disse Wambua Kilonzo, advogado em Nairóbi. "Tem havido muita animosidade. Tudo o que se fez até agora foi feito à mão armada".   O que parece irritar mais as pessoas é o tamanho do gabinete.   "Fomos enganados", disse Simoni Birundu, presidente nacional da rede anticorrupção "Name and Shame" (Denuncie e Envergonhe). "Precisamos de um gabinete enxuto, de modo a não consumir todos os nossos recursos nacionais".   Para Maina Kiai, presidente da Comissão Nacional de Direitos Humanos, esse gabinete inchado é "um insulto".   "Os políticos não estão interessados em nós", disse ele. "Estão interessados neles próprios. Vamos implorar dinheiro de outros países para alimentar nossos filhos. E depois usaremos o dinheiro dos nossos contribuintes para comprar grandes casas e limusines. Estamos falando de um novo Quênia. Mas em vez de avançar, vamos retroceder".

Mais conteúdo sobre:
quêniathe new york times

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.