Natacha Pisarenko/AP
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Governo defende vice, mas diz que ‘Cristina manda’

Presidente da Argentina, que se recupera de cirurgia na cabeça, recebe imagem de santo enviada pelo venezuelano Nicolás Maduro

Ariel Palacios, correspondente em Buenos Aires,

09 de outubro de 2013 | 23h00

BUENOS AIRES - O chefe do gabinete de ministros do governo de Cristina Kirchner, Juan Manuel Abal Medina, declarou ontem que Amado Boudou é o "vice-presidente a cargo da presidência interina do país", enquanto Cristina Kirchner está de licença médica. De acordo com ele, o vice "lidera a equipe de trabalho, mas é a presidente Cristina quem toma as decisões".

Segundo chefe do gabinete de ministros, "ela (Cristina) é a única que tem o poder" na Argentina. Medina criticou a oposição e analistas políticos que, de acordo com ele, "tentam desprestigiar o vice-presidente com a erosão de sua imagem para causar problemas".

Boudou, que é o integrante do governo Kirchner com a pior índice de aprovação popular, é alvo de vários processos na Justiça que investigam seu suposto envolvimento em casos de corrupção. O vice-presidente também é suspeito de enriquecimento ilícito. Diversos setores do kirchnerismo consideram Boudou um recém-chegado nas fileiras do governo e recordam seu passado de defensor enfático do neoliberalismo.

Os representantes do kirchnerismo, embora olhem com desconfiança para Boudou, começaram a declarar publicamente seu respaldo ao vice nos últimos dias. "Respaldamos o vice-presidente plenamente, pois, em um momento como este, temos de intensificar os esforços", afirmou o senador Miguel Ángel Pichetto, líder do bloco kirchnerista no Senado.

CONVENIÊNCIA

No entanto, analistas destacam que esses respaldos indicam uma espécie de "casamento por conveniência", já que os kirchneristas consideram que boa parte da perda de popularidade da presidente Cristina, no último ano e meio, ocorreu em razão dos escândalos de corrupção envolvendo Boudou.

Medina negou a formação de um governo de união entre vários integrantes do círculo íntimo do kirchnerismo. "Puras especulações", afirmou. No entanto, fontes parlamentares e analistas políticos indicaram ao Estado que o comando real do poder está dividido entre Medina, o secretário da presidência, Carlos Zanini, o chefe do serviço de inteligência, Héctor Izcazuriaga, e o filho da presidente, Máximo Kirchner.

Boudou, embora tenha o título formal de presidente interino, seria uma figura decorativa, enquanto que a gestão de governo estaria nas mãos desse grupo, que tem a total confiança da presidente.

Uma pesquisa elaborada pela consultoria Raúl Aragon e Associados, divulgada ontem, indicou que 76,5% dos entrevistados não confiam na gestão do vice-presidente. Somente 18,54% acreditam que Boudou será eficaz durante sua presidência interina.

SANTO

O papa Francisco, que sempre teve uma tensa relação com Cristina - e também com seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, que morreu em 2010 - enviou ontem um telegrama à presidente para desejar uma recuperação rápida.

O sumo pontífice afirmou que reza por ela e solicitou a Nossa Senhora de Luján que a "fortaleça, para que mantenha a esperança e possa voltar às suas responsabilidades cotidianas". O papa também disse que pediu a Deus que "lhe dê luz para que acerte em suas decisões".

O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, que vive em estado místico desde a morte de seu guru, o presidente Hugo Chávez, anunciou que enviaria a Cristina uma estatueta do doutor José Gregório Hernández, um "santo curador" da Venezuela.

Hernández, médico que trabalhava nos bairros pobres de Caracas, é um santo popular não reconhecido oficialmente pela Igreja Católica, embora exista um processo de beatificação em andamento.

Ontem, a equipe médica do Hospital Favaloro divulgou um novo boletim sobre o estado de saúde de Cristina. O relatório indica que o quadro da presidente argentina "evolui favoravelmente". O porta-voz da Casa Rosada, Alfredo Scoccimarro, afirmou que Cristina mandou "muitos beijos a todos os argentinos".

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