Governo divide até cartunistas

Humor na Era Kirchner feriu suscetibilidades

O Estado de S.Paulo

26 Maio 2013 | 02h07

Um dos principais chargistas da Argentina, Hermenegildo Sábat, ironiza a posição ideológica do governo de Cristina Kirchner. "Eles são inclassificáveis, embora digam que são de esquerda. Mas, se eles são de esquerda, sou a Rosa Luxemburgo", diz.

Sábat, caricaturista do jornal Clarín, chamado de "semimafioso" pela presidente durante um discurso em 2008 em razão de uma charge que ironizava a influência de seu marido, disse ao Estado que o governo está cada vez mais "irritado" e "fanático". "A presidente e seus ministros querem disciplinar todos os que não pensam como eles", afirma.

"Não dá para falar do fenômeno kirchnerista sem falar do presidente da Bolívia, Evo Morales, do venezuelano Hugo Chávez e dos brasileiros Lula e Dilma", diz o chargista Miguel Rep, do jornal Página 12 e da Revista Veintitrés. Ele simpatiza com o governo Kirchner, embora se defina como "independente". Rep disse ao Estado que nos dez anos de kirchnerismo a Argentina foi "beneficiada" pelos planos sociais. "Há uma clara vontade de distribuição econômica, fato que causa o ódio dos poderes econômicos, que sempre quiseram impor uma Argentina escrava do ajuste."

Justificativa. Rep também destaca que o governo deixou claro para a população argentina o papel dos meios de comunicação e os interesses empresariais que estão por trás deles". Para ele, o governo de Cristina, assim como de seus aliados na Venezuela, Brasil, Equador e Bolívia, "fala como o povo" e é composto por "pessoas inteligentes".

O chargista afirma que Cristina fala por meio de discursos ou de redes nacionais de TV para não passar pela intermediação dos meios de comunicação, "que tergiversam o que ela diz".

No entanto, Sábat afirma que a presidente Cristina não fala porque "tinha uma mentalidade provinciana, que estava acostumada à Província de Santa Cruz, onde a população é menor do que a de qualquer bairro de Buenos Aires. "Ela e seu marido não sabiam que os jornais portenhos podiam se expressar em liberdade. Por isso, a presidente e seus ministros suspeitam de todos e combatem todos para se convencer de que está com a razão", afirma Sábat. "E, além disso, ela não tem senso de humor."

Polarização. Rep ressalta que a sociedade argentina está dividida atualmente pelos antagonismos políticos. "Existe muita tensão entre amigos e dentro de famílias. Há muita suscetibilidade, que não provoca reflexões, mas sim, reações maniqueístas sobre a política."

Apesar das tensões, Rep considera que os dias de hoje, marcados pelos confrontos entre kirchneristas e antikirchneristas, é uma época "difícil de viver, mas rica". "As pessoas voltaram a falar sobre política", afirma. / A.P.

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