Governo do Afeganistão e Taleban reúnem-se no Japão

Um emissário do movimento islâmico radical afegão Taleban reuniu-se esta semana com um alto funcionário do governo do Afeganistão responsável por conversações de paz. O encontro aconteceu durante uma conferência sobre paz e reconciliação na Universidade Doshisha, em Kyoto, no Japão.

AE-AP, Agência Estado

30 de junho de 2012 | 19h00

O governo afegão foi representado por Mohammed Masoon Stanikzai, integrante do Alto Conselho da Paz e encarregado das negociações com as forças que se opõem à ocupação do Afeganistão por tropas estrangeiras. O representante do Taleban era Qari Din Mohhamed Hanif, que foi ministro do Planejamento no período em que o grupo governou o país - até a invasão norte-americana de novembro de 2001.

O porta-voz do Taleban Zabilullah Mujahed disse que Hanif participou da conferência "para explicar as políticas do emirado islâmico".

Dirigentes do Taleban raramente viajam ao exterior para eventos públicos e Mujahed não explicou como Hanif fez a viagem até o Japão. Embora Hanif seja um dos integrantes do Comitê Político Central do Taleban, aparentemente ele não está nas listas de procurados pelos EUA ou de pessoas proibidas de fazer viagens aéreas.

Segundo o ativista pacifista Siddiq Mansour Ansari, que foi convidado a participar da conferência em Kyoto, esta foi o terceiro evento pela paz no Afeganistão organizado pela Universidade Doshisha, mas o primeiro a que o Taleban enviou um emissário. "Nesta terceira conferência, todas as partes apresentaram suas ideias e agendas, mas não houve acordos concretos", disse Ansari.

O Taleban se recusa a negociar diretamente com o governo do presidente Hamid Karzai, alegando que quem tem o controle real do país são as forças de ocupação dos EUA e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Os EUA, que pretendem retirar suas tropas do país até o fim de 2014, estão tentando promover o diálogo entre as diversas forças políticas afegãs antes disso.

Hanif disse que as conversações entre o Taleban e os EUA no Qatar, em março, foram suspensas porque os EUA teriam descumprido promessas anteriores de libertar vários militantes da organização que estão presos ma base militar de Guantánamo (Cuba). Funcionários norte-americanos e afegãos disseram à Associated Press que os EUA agora estudam transferir alguns daqueles presos para prisões no Afeganistão.

O porta-voz Mujahed disse que o plano do governo do presidente norte-americano Barack Obama não é suficiente para atrair o Taleban de volta à mesa de negociações. "Queremos que os prisioneiros sejam soltos e tenham a liberdade de ir aonde quiserem. Não queremos que eles sejam transferidos de uma prisão para outra, o que significaria de Guantánamo para Bagram. Os americanos não são sinceros nas negociações e eles é que são responsáveis pelo impasse", acrescentou. Bagram é a maior base militar dos EUA no Afeganistão.

Durante a conferência de Kyoto, o Taleban encontrou um terreno comum com outro grupo islâmico afegão radical, o Hezb-e-Islami, apesar de informes de que as duas organizações estariam em conflito em seu próprio país. Segundo Ansari, os dois grupos estão de acordo na exigência de que todas as tropas estrangeiras deixem o Afeganistão até o fim de 2014.

"O Taleban insiste na retirada completa das tropas estrangeiras depois de 2014 e qualificou o governo Karzai como títere, insistindo que não vai negociar com Karzai e seu governo", disse o ativista. O Hezb-e-Islami é liderado por Gulbuddin Hekmatyar, um ex-primeiro-ministro afegão e antigo aliado dos EUA, hoje qualificado por Washington como terrorista. Ele tem apoio amplo no sul do Afeganistão e mesmo dentro do governo Karzai.

O representante do Hezb-e-Islami na conferência foi Ghairat Baheer, que já participou de conversações com norte-americanos em Cabul, entre eles o comandante das forças da Otan, o general John Allen, dos Fuzileiros dos EUA, e o embaixador Ryan Crocker.

Ansari disse que a conferência de Kyoto gerou a proposta de estabelecimento de uma comissão internacional para atuar como mediadora entre o governo Karzai e os grupos de oposição. Não houve consenso sobre isso durante o encontro.

"Estamos propondo uma comissão internacional para isso, porque ninguém confia em ninguém. Eles não confiaram no Alto Conselho da Paz e agora nós esperamos que eles concordem com uma comissão internacional imparcial, formada por acadêmicos, representantes da sociedade civil e intelectuais islâmicos", afirmou o ativista. "São 11 anos de ocupação, bilhões de dólares foram gastos e não houve mudanças, nada de bom foi trazido para os afegãos. Precisamos parar essa guerra, porque ela está não apenas afetando os afegãos como sendo uma grande dor de cabeça para a comunidade internacional, também", disse Ansari. As informações são da Associated Press.

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