George Tames/ NYT
George Tames/ NYT

Governo do Brasil se divide sobre participação no embargo a Cuba

Militares brasileiros pressionavam Jango em 1962 a enviar forças para ajudar no cerco a Havana

Roberto Simon, O Estado de S. Paulo,

29 de setembro de 2012 | 23h15

Texto atualizado em 30/09, às 23h33

BRASÍLIA - Sob a pressão da Crise dos Mísseis, há 50 anos, o Brasil de João Goulart já expunha fissuras que, dois anos depois, levariam à ruptura do golpe militar. Documentos da época mostram que o governo brasileiro estava dividido sobre como reagir ao risco das armas soviéticas em Cuba e a cúpula dos militares, muitos dos quais dariam o golpe dois anos depois, pressionava Jango a enviar forças para contribuir com o embargo naval imposto à ilha de Fidel Castro.

Em outubro de 1962, o então líder soviético, Nikita Khruchev, decidira instalar foguetes nucleares a quase 300 quilômetros de Miami, algo que o governo de John F. Kennedy estava disposto a impedir a qualquer custo – até mesmo com a guerra.

Com base em documentos secretos da diplomacia brasileira, análises de historiadores e testemunhos de protagonistas, o Estado mostra desde o domingo como o Brasil de Jango, solidário a Cuba, mas dependente dos EUA, acompanhou de perto e chegou a tentar mediar a crise que ameaçava iniciar a 3a Guerra Mundial.

Um dia depois de Kennedy discursar na TV anunciando ao mundo a crise, a Organização dos Estados Americanos (OEA) adotou por unanimidade – portanto, com voto favorável do Brasil de Jango – uma resolução impondo um embargo naval à ilha socialista.

No entanto, em carta secreta ao presidente americano naquele mesmo dia, o líder brasileiro havia recusado dialogar sobre preparativos para uma resposta militar à presença dos mísseis em Cuba.

Países como Argentina, Venezuela e Colômbia enviaram forças para ajudar os EUA a isolar a ilha de Fidel. O governo de Jango, porém, resistia a mandar tropas brasileiras – sob crescente pressão interna.

Benefícios. "Estou informado que os adidos militares desta embaixada estão sugerindo hoje ao EMFA (Estado-Maior das Forças Armadas) e aos chefes dos Estados-Maiores respectivos que o governo brasileiro ofereça elementos de nossas Forças Armadas para colaborar no bloqueio a Cuba", escrevia, às 18h30 do dia 31 de outubro, o embaixador do Brasil em Washington, Roberto Campos, ao chanceler brasileiro, Hermes Lima. Com o golpe de 1964, Campos se tornaria ministro do Planejamento do governo Castello Branco.

O diplomata continuava a mensagem enumerando as vantagens que traria uma participação do Brasil no cerco a Cuba. Membros do Congresso americano, reticentes ao envio de ajuda econômica ao Brasil de Jango, veriam o apoio ao bloqueio com bons olhos, dizia Campos, "e a maioria dos países latino-americanos tem oferecido contribuição".

Pressões. O embaixador ainda chamava atenção para "a nova compreensão do problema" dos mísseis em Cuba por líderes da esquerda brasileira, como Brizola, e, provavelmente, o Brasil não precisaria de fato enviar as tropas, mas apenas faria o gesto de "solidariedade" a Washington.

Ao longo da crise, Campos relata, em mensagens diversas, conversas com autoridades americanas, incluindo o próprio presidente Kennedy, que cobravam o Brasil pela "tibieza" de sua posição e, supostamente, o acusavam de ser um dos aliados menos solidários ao bloco ocidental, "juntamente com a Itália".

Do outro lado da cortina de ferro, o embaixador do Brasil em Moscou, Vasco Leitão da Cunha – que se tornaria chanceler com o golpe de 1964 –, narrava como a imprensa soviética vinha dando amplo destaque à posição de Jango "com declarações elogiosas".

Solidariedade. A defesa da autonomia de Cuba se tornara um ponto central da diplomacia brasileira no governo Jânio Quadros e Jango manteve uma diplomacia amplamente solidária a Havana. Em maio de 1962, o embaixador do Brasil em Cuba, Luiz Bastian Pinto, passava um recado ao ministro San Tiago Dantas: "Tive ontem longa conversa com Fidel Castro, o qual me pediu expressamente transmitir a Vossa Excelência a confiança e a admiração que lhe inspiram o Brasil e o presidente Goulart e, especialmente, a política externa do governo brasileiro".

Exatamente dois anos depois, com o golpe militar, o Ministério das Relações Exteriores no Rio enviava à Embaixada do Brasil em Havana ordens para romper as relações diplomáticas com Cuba.

O encarregado de negócios na ilha, Enaldo Camaz Magalhães, deveria afirmar que "o governo dos Estados Unidos do Brasil considera não haver mais condições para o prosseguimento de relações diplomáticas" ao chanceler cubano, Raúl Roa García. Se o emissário brasileiro não fosse recebido por nenhuma autoridade de Havana, bastaria deixar a nota na chancelaria e ir embora.

 

 

 

 

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