Governo do CNA tem boas relações com regimes autoritários

O Congresso Nacional Africano (CNA), principal partido sul-africano, chegou ao poder em 1994 com a eleição de Nelson Mandela. Depois de anos de luta contra o apartheid e com um prêmio Nobel da Paz ocupando a presidência, era de se esperar que o CNA adotasse em seu governo uma política externa agressiva contra regimes opressores. Pretória, contudo, escolheu outro caminho. A razão para a África do Sul ter se tornado uma válvula de escape para ditadores é a gratidão.

Cristiano Dias, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2011 | 00h00

Durante a Guerra Fria, o CNA recebeu ajuda de Moscou e apoio de outros movimentos de libertação nacional africanos. Logo após deixar a prisão, Mandela correu o mundo para agradecer aqueles que nunca abandonaram a luta pela liberdade dos negros sul-africanos: Fidel Castro, Yasser Arafat, Bashar Assad, Robert Mugabe e Muamar Kadafi. "Nossa relação com outros países será determinada pelas atitudes desses países com relação a nossa luta", disse Mandela.

Em 1997, cinco anos após as primeiras sanções da ONU contra a Líbia, Mandela voou até Trípoli para tirar Kadafi do isolamento. Na ocasião, ele disse que preferia passar outros 27 anos na cadeia a abandonar seus princípios. "Esse homem (Kadafi) nos ajudou quando estávamos sozinhos, quando aqueles que dizem que não deveríamos estar aqui ajudavam o inimigo", afirmou Mandela, em referência ao apoio dos EUA ao regime branco da África do Sul.

A diplomacia de Mandela ajudou a reintegrar a Líbia à comunidade internacional e ditou o rumo da nova política externa sul-africana. Na última década, Pretória impediu ações efetivas contra o ditador zimbabuano Robert Mugabe. Durante os anos em que esteve no Conselho de Segurança da ONU, a África do Sul opôs-se a resoluções que colocassem pressão sobre os governo de Bielo-Rússia, Cuba, Coreia do Norte, Mianmar e Irã.

A boa relação com regimes autoritários ainda é doutrina em Pretória. Recentemente, o maior partido de oposição da África do Sul, a Aliança Democrática, acusou o governo do CNA de autorizar a venda de armas de alta tecnologia para Síria, Líbia e Venezuela. Agora, ao tentar ser a tábua de salvação de Kadafi, Jacob Zuma, ainda que timidamente, apenas segue a diretriz histórica do partido.

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