REUTERS/Andres Martinez Casares
REUTERS/Andres Martinez Casares

Governo do Haiti abrirá investigação sobre caso Oxfam

Chanceler haitiano disse que país quer encontrar os envolvidos no caso e, se forem considerados culpados, puni-los; ONG britânica anuncia criação de plano para atacar os problemas de assédio sexual na organização e aumento dos programas de proteção

O Estado de S.Paulo

16 Fevereiro 2018 | 11h53

PORTO PRÍNCIPE - O governo do Haiti anunciou na quinta-feira a abertura de uma investigação sobre as denúncias de exploração sexual contra membros da organização britânica Oxfam no país caribenho após o terremoto de 2010 que devastou o país caribenho.

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"O Estado haitiano quer lançar luz sobre este tema e encontrar os responsáveis, aqueles que estão envolvidos neste caso que, se forem considerados culpados, serão punidos conforme a justiça", declarou o chanceler Antonio Rodrigue. 

Os representantes da ONG Oxfam no Haiti foram convocados pelas autoridades do país, mas a reunião foi adiada até a semana que vem. "Consideramos oportuno adiar esta reunião devido à ausência do ministro de Planejamento. O diretor da Oxfam no país também está viajando e o diretor da Oxfam para as Américas e o Caribe também virá para se reunir com as autoridades haitianas", disse Rodrigue. 

Na última terça-feira, o presidente haitiano, Jovenel Moise, escreveu no Twitter que o ocorrido com a Oxfam no Haiti "é uma violação extremamente grave da dignidade humana".

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Segundo uma investigação do Times publicada na sexta-feira passada, jovens prostitutas foram convidadas a casas e hotéis pagos pela Oxfam no Haiti. Uma fonte citada pelo jornal britânico disse ter visto um vídeo de uma orgia com prostitutas com camisetas da organização. 

Quatro empregados foram despedidos e outros três pediram demissão antes do final da investigação interna lançada em 2011, assegurou a ONG. 

Plano de Ação

A Oxfam revelou nesta sexta-feira, 16, um plano para atacar os problemas de assédio sexual na organização. A ONG anunciou a criação de uma comissão que "trabalhará à distância da Oxfam" e terá acesso aos registros da ONG e de seus funcionários, que serão entrevistados para a identificação dos abusos.

"O que aconteceu no Haiti é uma mancha sobre a Oxfam, que nos envergonhará durante anos, e com razão", declarou a diretora-executiva da Oxfam Internacional, Winnie Byanyima. "Imploro o perdão, de todo coração", completou.

A Oxfam triplicará o financiamento dos programas de proteção - que superará assim a quantia de US$ 1 milhão - e vai dobrar os número de funcionários no departamento, ampliando o investimento na formação sobre questões de gênero. 

"Vamos criar um sistema de verificação", disse Winnie à rede BBC. "Convido realmente qualquer pessoa que tenha sido vítima de abusos em nossa organização a se identificar", completou.

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As primeiras revelações sobre o Haiti levaram a outras sobre abusos em outros países. Vários funcionários da Oxfam foram acusados de estupro durante missões humanitárias no Sudão do Sul e de abusos sexuais na Libéria.

Também nesta sexta, a Oxfam disse que "investiga" acusações de abuso sexual que teriam ocorrido em 2013 nas Filipinas. "Não tenho como saber quantos (casos são), porque temos de investigar", afirmou Winnie, garantindo que "a maioria" dos dez mil funcionários da ONG em todo mundo é composta de "pessoas de valor".

Defesa

O belga Roland van Hauwermeiren negou ter organizado orgias com prostitutas enquanto trabalhava como diretor da ONG no Haiti, em carta publicada na quinta em um veículo de comunicação local.

"Nunca entrei em um bordel, uma discoteca ou um bar neste país", afirmou o belga, de 68 anos, em texto de quatro páginas publicada no site da emissora privada VTM Nieuws. 

"Houve muitas tentativas de homens e mulheres de entrar na minha casa com qualquer tipo de desculpa para pedir dinheiro, exigir um emprego ou oferecer serviços sexuais. Mas jamais cedi a suas insinuações", declarou.

O ex-diretor da Oxfam no Chade e no Haiti admitiu, no entanto, em investigação interna realizada pela ONG britânica, que "manteve relações íntimas em três ocasiões em seu domicílio".

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"Era uma mulher respeitável e madura, não uma vítima de um abalo, nem uma prostituta. E nunca lhe dei dinheiro", assegurou, embora tenha admitido sentir-se "profundamente envergonhado" disso.

Horas antes, em declarações ao jornal belga Het Nieuwsblad, assegurou que alguns dos fatos dos quais é criticado foram "exagerados". O jornal encontrou o ex-funcionário da Oxfam em uma cidade do litoral belga.

"Muita gente, inclusive a imprensa internacional, ficará surpresa quando ouvir minha versão. Não que negue tudo. Não é o caso. Há coisas que descreveram corretamente. Mas há muitas mentiras e exageros", disse Van Hauwermeiren ao jornal. "O mais duro é que minha família não quer mais me ver", acrescentou. / AFP e EFE

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