Governo do Haiti resiste a tentativa de golpe

O pressionado governo de Jean-Bertrand Aristide resistiu, nesta segunda-feira, a um golpe de Estado promovido por comandos que invadiram o Palácio Nacional e mataram quatro pessoas antes de a polícia retomar o prédio.Um rebelde foi morto e os outros fugiram, disseram autoridades. Partidários do governo, enquanto isso, retaliaram, queimando casas e escritórios de líderes da oposição em todo o país.Pelo menos sete pessoas morreram na violência desta segunda-feira, o que levou a Embaixada dos Estados Unidos a fechar suas portas e aconselhar aos norte-americanos que vivem no Haiti a não sair de casa. Linhas aéreas cancelaram vôos para a miserável nação caribenha.No momento do ataque, Aristide e sua mulher estavam em sua casa em Tabarre, a cerca de cinco quilômetros do palácio, e nada sofreram, disse o porta-voz do Palácio Nacional, Jacques Maurice.Mais de 14 horas depois do ataque, Aristide ainda não havia aparecido no rádio nem na televisão, mas autoridades do governo garantiram que ele faria um pronunciamento."Foi uma tentativa de golpe de Estado", declarou Maurice.Antes de assaltarem o palácio, os comandos tentaram atacar a penitenciária nacional, mas foram rechaçados, segundo Maurice.Os rebeldes seguiram então para o palácio, lançando uma granada no prédio, por volta das 2h locais. Em seguida, abriram fogo enquanto entravam, disse ele. Dois policiais foram mortos e outros seis ficaram feridos.Uma picape, aparentemente transportando homens armados, fugiu em alta velocidade do palácio e escapou, divulgou a rádio nacional. Enquanto fugiam, os homens na picape mataram a tiros dois pedestres.A polícia retomou o palácio no meio da manhã, matando a tiro um dos rebeldes, afirmou o chefe de segurança do Palácio Nacional, Jean Oriel. A polícia estava à procura dos outros rebeldes.Oriel disse que o rebelde morto, como outros do grupo, estava usando uniforme caqui do antigo Exército do Haiti, que Aristide desmobilizou após retornar ao poder em 1994.Este ano, antigos soldados e partidários daquele golpe promoveram diversas manifestações contra Aristide, pedindo o restabelecimento do Exército de 7.500 homens.Aristide foi eleito presidente pela primeira vez em 1990 e permaneceu no poder apenas oito meses, antes de ser afastado por um golpe militar, em 30 de setembro de 1991.Ele foi levado novamente ao poder por tropas dos EUA, em 1994, mas uma limitação do mandato forçou-o a se afastar em 1996, quando foi substituído por seu protegido, René Preval. Aristide deu início ao seu segundo mandato em fevereiro deste ano.Durante o ataque ao palácio, os rebeldes usaram rádios para se comunicar, alguns falando em crioulo, enquanto outros conversavam em inglês e espanhol, disse Maurice.Uma autoridade do governo, que pediu para não ser identificada disse que os atacantes identificaram seu líder como sendo o antigo chefe de polícia da cidade nortista Cap-Haitien, Guy Philippe, que fugiu, no ano passado, para a vizinha República Dominicana, junto com sete oficiais acusados de planejarem um golpe.Mas Philippe ligou para a Associated Press da República Dominicana, para negar envolvimento no ataque, alegando ter se tratado de "uma armação para criar um pretexto para atacar a oposição".Depois do ataque, centenas de partidários de Aristide, brandindo machetes, cercaram o palácio ao gritos de "Nunca aceitaremos outro golpe de Estado".Numa aparente retaliação, partidários de Aristide incendiaram a sede da aliança oposicionista Convergência na capital, assim como três prédios de partidos da oposição.Também foi queimada a casa do líder oposicionista Luc Mesadieu, na nortista cidade de Gonaives. Dois homens não identificados foram mortos pela multidão, e seus corpos, carbonizados.Desde a grande vitória do partido de Aristide, Família Lavalas, nas eleições parlamentares e municipais em maio de 2000, o Haiti foi tomado por protestos, com a oposição denunciando fraude e doadores estrangeiros negando-se a liberar centenas de milhões de dólares em ajuda até que os resultados sejam revisados.A Organização dos Estados Americanos (OEA), que tem tentado mediar entre a oposição e o governo, condenou a violência desta segunda.Os governos de França e Estados Unidos condenaram os ataques. "Estamos ao lado das pessoas que foram eleitas e contra aquelas que tentaram derrubar o governo pela força", disse Richard Boucher, porta-voz do Departamento de Estado dos EUA.A vizinha República Dominicana fechou suas fronteiras com o Haiti, disse o secretário das Forças Armadas dominicanas, José Miguel Soto.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.