Toru Hanai/REUTERS
Toru Hanai/REUTERS

Pandemia força governo do Japão a doar arroz estocado a instituições de caridade

Terceira maior economia do mundo tem taxa de pobreza de 15,7%; crise trouxe aumento do desemprego

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2021 | 08h00

TÓQUIO - Quando Ayumi perdeu seu emprego em um restaurante no verão passado, sua alimentação passou a depender do arroz e comida pré-embalada entregues uma vez por mês no campus de sua faculdade em Tóquio. Os alimentos eram fornecidos por um banco de alimentos. “Passei a comer apenas uma vez por dia, no meio da tarde”, disse a jovem de 22 anos. “Muitos amigos estavam no mesmo barco. Eles também trabalhavam em restaurantes que foram atingidos por conta do coronavírus.”

Com o aumento do desemprego devido à pandemia, a demanda por doações de alimentos disparou no Japão. Em maio passado, pela primeira vez, o governo teve de liberar o arroz do fundo de reserva nacional para as instituições de caridade. Outro programa ampliado começa neste mês.

A pandemia destacou a pobreza muitas vezes esquecida no Japão, que ostenta a terceira maior economia do mundo, mas onde a taxa de pobreza é de 15,7%, de acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Além disso, em 2020, o número de vagas de emprego por candidato teve sua maior queda em 45 anos, enquanto a taxa média de desemprego aumentou pela primeira vez em 11 anos.

A ação governamental do Japão de liberar arroz estocado para instituições de caridade vem com a exigência de que o alimento seja direcionado a crianças. Ativistas temem que a condição limite o impacto da distribuição e pedem para que as regras sejam flexibilizadas.

“Somos obrigados por lei a usar o estoque apenas em caso de falta de abastecimento no mercado ou para fins de 'educação alimentar'. Não podemos usá-lo para o bem-estar”, disse uma autoridade do Ministério da Agricultura, Florestas e Pescas (MAFF). “Esta é a extensão do que podemos fazer.”

O Japão adotou a política de manter um estoque emergencial de arroz logo depois que uma colheita ruim em 1993 causou uma escassez crítica do alimento básico nacional.

A limitação imposta pelas exigências do governo

Um estoque de cerca de 1 milhão de toneladas é mantido em armazéns por todo o país, com o arroz mais velho sendo vendido como ração. O Japão consome cerca de 8,5 milhões de toneladas de arroz anualmente, de acordo com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), sendo o nono maior consumidor do mundo. Os bancos de alimentos têm pressionado o governo por anos para que parte do arroz seja liberado, mas as restrições legais referentes ao estoque tornaram isso impossível.

O governo fornece gratuitamente uma quantidade do arroz do fundo nacional para escolas públicas, mas a medida entra na categoria de ‘educação alimentar’, com o argumento de que as crianças aprendem sobre a importância do arroz para a cultura japonesa.

Quando a pandemia forçou a maioria das escolas no Japão a fechar na primavera passada, por volta do mês de março, os funcionários das cantinas escolares, conhecidos como “kodomo shokudo”, conseguiram convencer o governo  a fornecer arroz gratuito do estoque, argumentando que muitas crianças estavam passando fome sem seus almoços escolares. “Contanto que as crianças fossem o usuário final, imaginamos que isso poderia ser considerado 'educação alimentar'”, disse o oficial do MAFF. 

A medida foi considerada um passo simbólico significativo, mas o impacto real foi limitado, uma vez que o governo permitiu a liberação de até 60 quilos por instituição de caridade por ano e exigiu que o arroz fosse cozido, em parte para evitar o abuso por meio da revenda. Como resultado, menos de 10 toneladas foram recolhidas.

Neste mês, uma iniciativa expandida projetada para um tipo relativamente novo de caridade, que entrega alimentos para famílias pobres, removeu a necessidade de o arroz ser cozido, mas manteve o limite de 300 quilos por ano para cada organização.

Charles McJilton, fundador e CEO do Second Harvest Japan, o maior banco de alimentos do país, afirmou que 300 quilo de arroz “durariam 30 minutos”. A estimativa é que os grandes bancos de alimentos distribuem 18 mil quilos anualmente – 60 vezes mais do que o provido pela medida governamental. 

“Trezentos quilos é um insulto a uma nação que tem tanto arroz disponível e 20 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza", disse McJilton à agência Reuters. “As pessoas estão caindo pelas fendas. Se é a lei, mude a lei.”

Nos Estados Unidos e em alguns países europeus, os governos apoiam ativamente os bancos de alimentos por meio de diversos programas. No Japão, entretanto, o MAFF é responsável pela “promoção da agricultura, florestas e pesca", sem função nem orçamento para combater a fome, disse o funcionário do ministério.

A covid-19 piorou as coisas, como previsto, com a demanda por doações de alimentos mais do que dobrando em relação aos níveis pré-pandêmicos no Japão, onde receber assistência do governo carrega um forte estigma social que impede muitas pessoas de acessar esses benefícios.

A capital do Japão, Tóquio, com uma população de 14 milhões, tem cerca de 40 despensas de alimentos disponíveis para os cidadãos. Em comrapação, Hong Kong tem 200 despensas de alimentos para 7 milhões de pessoas, de acordo com o Second Harvest Japan. /REUTERS

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