Thaier Al-Sudani/Reuters
Thaier Al-Sudani/Reuters

Premiê do Líbano renuncia em meio à crise após explosões em Beirute

Situação de Hassan Diab ficou insustentável após protestos violentos do fim de semana e da demissão de vários ministros; líderes dos partidos devem negociar com o presidente a escolha de novo premiê, processo que pode levar meses

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2020 | 13h47
Atualizado 10 de agosto de 2020 | 22h03

BEIRUTE - O governo do Líbano não resistiu à catastrófica explosão na região portuária de Beirute. Uma semana após a tragédia, que matou 200 pessoas, deixou 6 mil feridos e 300 mil desabrigados, o premiê, Hassan Diab, renunciou nesta segunda-feira, 10, após a pressão das ruas provocar a demissão de um terço de seu gabinete.

Em discurso na TV, Diab se colocou ao lado da população e culpou a “corrupção endêmica” pelo desastre institucional do Líbano. “Só Deus sabe quantas catástrofes eles estão escondendo”, afirmou o premiê, em uma aparente referência à elite política do país. “A corrupção está enraizada em todas as partes do Estado. Descobri que a corrupção é maior do que o Estado.”

Hoje, cenas de guerra novamente tomaram conta do centro de Beirute – repetindo os confrontos do fim de semana. Antes do anúncio de Diab, manifestantes tentaram invadir o Parlamento e foram reprimidos pela polícia. Usando máscaras e óculos de proteção, eles escalaram barricadas e atiraram pedras na tropa de choque, que disparou bombas de gás lacrimogêneo. 

No entanto, a renúncia e o discurso moralista do premiê não devem provocar nenhuma mudança imediata na política libanesa, já que os atuais ministros – incluindo aqueles que renunciaram – deverão assumir de maneira interina a função de formar um novo governo.

Agora, os líderes dos partidos no Parlamento devem negociar com o presidente libanês, Michel Aoun, a escolha de um novo premiê, um processo que pode levar meses. Enquanto isso, Diab permanece provisoriamente no cargo, enfraquecido e com funções limitadas, o que tende a agravar a crise. 

Sob pressão, Aoun chegou a declarar na sexta-feira que a tragédia pode ter sido causada “por intervenção externa”, citando a hipótese de “um míssil”. “É possível que tenha sido causado por negligência ou por uma ação externa, com um míssil ou uma bomba”, disse ele. 

“A renúncia não é suficiente”, disse Ahmed al-Mohamed, de 27 anos, que levava um pedaço de pano coberto de sangue na cabeça. “Temos de derrubar o presidente e o chefe do Parlamento. É questão de dias, e vamos fazer isso.”

A situação de Diab ficou insustentável após os protestos violentos do fim de semana, que exigiam uma mudança de regime e a renúncia do premiê. Para muitos libaneses, a explosão foi a gota d’água em uma crise prolongada que envolve o colapso da economia, corrupção e um governo disfuncional. 

Diante da raiva de uma população cansada, o ministros das Finanças, Ghazi Wazni, e a ministra da Justiça, Marie-Claude Najm, anunciaram nesta segunda-feira, 10, suas renúncias, o que eleva a quatro os pedidos de demissão de integrantes do Executivo após a tragédia.

No domingo, 9, a ministra da Informação, Manal Abdel Samad, e o ministro do Meio Ambiente, Damianos Kattar, deixaram o governo. Nove deputados também renunciaram aos cargos. No entanto, os números – 4 de 20 ministros e 9 de 128 parlamentares – são insuficientes para a convocação de novas eleições. 

A negociação para substituir o premiê deve ser liderada pelo ex-primeiro-ministro Saad Hariri, antecessor de Diab, que se demitiu em outubro em meio aos protestos populares por mudanças no país.  Um segundo nome forte é o do ex-diplomata Nawaf Salam.

Os protestos contra o governo nos últimos dias foram os maiores desde outubro. Os manifestantes também acusaram a elite política de desviar recursos do Estado em benefício próprio. Durante as manifestações, os libaneses pediram "vingança" contra a classe política. 

"Todos significa todos", disseram nos últimos dois dias os manifestantes. Efígies de muitos dos políticos, incluindo do presidente e de Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, foram penduradas em forcas durante os protestos.

"Há apenas uma pessoa que controla este país, é Hassan Nasrallah", afirmou um dos nove deputados que anunciou sua renúncia, Nadim Gemayel. "Para eleger um presidente, nomear um primeiro-ministro (...) você precisa da autorização de Hassan Nasrallah".

Poder compartilhado

O Líbano não é dominado por um governante forte, mas tem vários líderes e partidos que representam os grupos sectários do país e compartilham o poder. Os cargos são distribuídos por cotas entre 18 denominações religiosas, e o Parlamento é meio cristão e meio muçulmano.

O primeiro-ministro deve ser sempre um muçulmano sunita, o presidente é um cristão maronita e o presidente do Parlamento, um xiita. O presidente é indicado pela Assembleia Nacional por dois terços dos votos. Depois, indica um premiê após consultar o Parlamento.

Ajuda conjunta de libaneses e judeus 

As comunidades libanesa e judaica do Estado de Goiás anunciaram um esforço conjunto para arrecadar donativos para o Líbano. As doações serão depositadas em uma conta emergencial da Câmara de Comércio Brasil- Líbano (CNPJ 62.370.887/0001-67, banco Bradesco 237, agência 099, Conta Poupança 302324-9). / Reuters, AFP e The Washington Post 

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