Governo do Quênia fala em 'genocídio'; mortos chegam a 300

O governo do presidente Mwai Kibakiacusou na quarta-feira o partido de seu rival Raila Odinga dedesencadear um "genocídio" no Quênia, enquanto os mortos naviolência decorrente de uma eleição contestada passavam dos300. "Está se tornando claro que esses atos bem organizados degenocídio e limpeza étnica foram bem planejados, financiados eensaiados por líderes do Movimento Democrático Orange (ODM),antes das eleições gerais", informa uma declaração lida peloministro Fundiário, Kivutha Kibwana, em nome de seus colegas degabinete. O ODM não respondeu de imediato a acusação. Os partidáriosde Odinga, em sua maioria de sua tribo, a dos Luos, atribuírama violência a Kibaki por este ter "roubado" os votos da eleiçãopresidencial de 27 de dezembro. Já houve muitos choques de Luoscontra membros da tribo Kikuyo, à qual Kibaki pertence. Num aparente gesto de conciliação com o ODM, Kibakiconvidou todos os membros do novo Parlamento, dominado pelaoposição, para uma reunião na Casa do Governo em Nairóbi, naquarta-feira. Não se sabe quantos parlamentares oposicionistasvão participar da reunião. O uso do termo "genocídio" vai chocar os quenianos, queestão acostumados a que seu país seja visto pelo mundo como umademocracia estável, destino turístico e de investimentos eoásis de paz numa região volátil e marcada pelo genocídio deRuanda em 1994. O Quênia é aliado importante do Ocidente em seus esforçosantiterrorismo, recebe fluxos crescentes de dinheiro da China eestá acostumado a atuar como mediador de paz -- e não ponto deconflitos -- em regiões tensas da África, como Somália e Sudão. Desde sua independência da Grã-Bretanha, em 1963, a triboKikuyu domina a vida política e econômica no país, que hoje é amaior economia da África Oriental e a que cresce em ritmo maisacelerado. Países ocidentais pediram calma e que instituiçõesinternacionais como a União Africana e a Comunidade Britânicaprocurem conciliar Kibaki e Odinga. Cada partido acusa o outrode fraude eleitoral, e Odinga planeja um comício gigante para aquinta-feira. Um grupo local e outro internacional de defesa dos direitoshumanos estimaram o número de mortos em "mais de 300" eacusaram as forças de segurança quenianas de "repressãosangrenta" a protestos de partidários da oposição. "Alguns manifestantes, em reação, foram responsáveis porassassinatos de Kikuyus", disseram a Comissão de DireitosHumanos do Quênia e a Federação Internacional de DireitosHumanos. E, numa reação em cadeia assustadora, mais e mais casosforam vistos na quarta-feira de mortes por vingança cometidaspor militantes Kikuyus, incluindo os integrantes da notóriagangue Mungiki, contra membros das tribos oposicionistas. Cerca de 30 Kikuyus morreram na terça-feira quando umamultidão ateou fogo a uma igreja onde os Kikuyus tinham serefugiado em Eldoret, no oeste do país. O episódio lembrou osmassacres de centenas de milhares de pessoas em igrejas duranteo genocídio de Ruanda em 1994. O ataque em Eldoret foi um dos piores episódios naviolência que já levou quase 100 mil quenianos a abandonar suascasas, sendo que alguns atravessaram a fronteira do Uganda. Em Naivasha, no vale do Rift, dezenas de pessoas ficaramferidas em ataques de vingança pelo massacre na igreja, e cercade 300 moradores locais apavorados passaram a noite acampadosna cadeia e na delegacia de polícia. Kibaki tomou posse no domingo, depois de os resultadosoficiais da eleição indicarem sua vitória sobre Odinga pormargem estreita de votos. A missão de observação da UE disseque a eleição "não satisfez os padrões internacionais eregionais chaves em eleições democráticas". (Reportagem adicional de Nicolo Gnecchi, HelenNyambura-Mwaura, Katie Nguyen, George Obulutsa, Daniel Wallis,Antony Gitonga, Bryson Hull)

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