REUTERS/Andres Cuenca Olaondo
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Governo do Uruguai atrai argentinos que fogem da crise

Batalha ideológica no Rio da Prata opõe presidente conservador do Uruguai, Lacalle Pou, e o peronista argentino Alberto Fernández

Daniel Galvalizi, ESPECIAL PARA O ESTADÃO / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2020 | 05h00

A crise argentina vem causando atrito entre os governos conservador de Luis Alberto Lacalle Pou, do Uruguai, e o peronista de Alberto Fernández, da Argentina. A pandemia afetou as exportações argentinas e interrompeu o turismo, minguando os dólares.

Aos problemas de caixa, Fernández reagiu com aperto fiscal e um projeto de taxar grandes fortunas, aprovado pelos deputados na semana passada. Do outro lado do Rio da Prata, Lacalle Pou acena com incentivos para atrair argentinos ricos.

Ciente da crise no país vizinho, o presidente do Uruguai propôs, em junho, um projeto para facilitar o assentamento de estrangeiros ricos, de olho nos milionários argentinos que desejam mudar a sede das empresas para um ecossistema econômico mais confiável, com menos impostos e perto de casa. 

Aprovado pelo Congresso em agosto, o decreto de Lacalle Pou baixou o teto para os estrangeiros que quiserem se qualificar como residentes. Agora, eles precisam comprar um imóvel de no mínimo US$ 380 mil – antes era de US$ 1,7 milhão.

Para empresários, o investimento inicial foi cortado de US$ 5,5 milhões para US$ 1,6 milhão. A isenção de parte dos impostos duplicou, de cinco para dez anos. Além disso, a obrigação de passar um tempo no país baixou de seis para dois meses.

De acordo com a revista britânica The Economist, 20 mil argentinos já teriam dado entrada em pedidos de residência no outro lado do Rio da Prata. Fernández reagiu ao êxodo, determinando que os argentinos que se mudarem terão de viver no Uruguai por pelo menos seis meses do ano, podendo ficar apenas 90 dias na Argentina.

A desvalorização do peso argentino, que começou em 2016, mas disparou em 2018 e 2019, fez com que a moeda local se tornasse uma das mais fracas da América Latina. Em janeiro de 2016, um dólar equivalia a 15 pesos.

Hoje, vale 87 pesos, embora seu verdadeiro preço (no mercado ilegal e paralelo) seja 156. A economia da Argentina, a terceira maior da região – depois de Brasil e México –, encolheu muito, quando calculada em dólar: está 40% menor se comparada a 2008.

A falta de confiança na economia, o ambiente ruim para os negócios e uma agressiva política fiscal, que inclui restrições cambiais e à remessa de lucros para o exterior, vêm provocando uma fuga não só de multinacionais, mas de cidadãos. A reação de Fernández tem sido a negação da crise, pelo menos publicamente.

No dia 3, o ministro da Produção, Matías Kulfas, chamou de “mito” o êxodo em massa. Em relatório, o ministério afirmou que, “nas últimas semanas, se instalou na agenda a ideia de que a Argentina estaria sofrendo um suposto êxodo de empresas, em decorrência de políticas anti-investimento vigentes no país”. “Tivemos alguns casos pontuais. Mas este não é um problema só argentino”, disse Kulfas.

O governo descreve o cenário como “falso”, pois muitas empresas prometeram investimentos ainda neste ano. Para o ministro do Trabalho, Claudio Moroni, “não existe uma situação particular na Argentina que provoque a saída de empresas, mas sim decisões empresariais tomadas por motivos diferentes”.

Os problemas econômicos da Argentina são cada vez mais influenciados pelo confronto crescente entre as duas principais alas da coalizão governamental: o kirchnerismo, de Cristina, e o peronismo mais tradicional, de Fernández. O primeiro tem força em Buenos Aires e no Congresso – metade dos deputados e senadores responde cegamente à liderança da vice-presidente. 

Fernández conta com o apoio dos governadores mais centristas (exceto o da Província de Buenos Aires) e dos sindicatos peronistas. A divisão é palpável não apenas na política econômica, mas também em várias batalhas legislativas, como a eleição do próximo procurador-geral do Estado e o projeto para mudar as primárias.

As diferenças estão se tornando cada vez mais evidentes: Cristina e o presidente não se viam pessoalmente havia 72 dias, até que a morte de Diego Maradona reuniu os dois no tumultuado velório do craque na Casa Rosada.

A crise econômica e a instabilidade política não se restringem ao mundo empresarial ou aos veículos de comunicação. O impulso para deixar o país é um fenômeno social que está se tornando cada vez mais visível em conversas informais entre amigos, colegas de trabalho e parentes. 

Hoje, é difícil encontrar um argentino que, em algum momento da conversa, não comente sobre um conhecido que pensa em sair da Argentina ou que pretende acionar os procedimentos para adquirir a cidadania de algum país da União Europeia – um porcentual muito elevado da população tem pelo menos um avô ou bisavô europeu.

De acordo com um relatório da consultoria de recursos humanos Randstad Argentina, os pedidos para encontrar trabalho no exterior dispararam. Segundo os dados, a primeira opção é a Espanha (26%), seguida de EUA (21%), Itália, Chile e Uruguai (7%) e Canadá (2%). 

A Randstad afirma que os profissionais argentinos mais requisitados são cientistas da computação, engenheiros, economistas e publicitários. O relatório indica ainda que 84% dos trabalhadores argentinos consideram a possibilidade de seguir carreira no exterior. 

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