Arash Khamooshi/The New York Times
Arash Khamooshi/The New York Times

Governo e cidadãos do Irã tentam resistir ao impacto das novas sanções dos EUA

Enquanto o presidente Hassan Rohani e o Banco Central do país anunciam medidas econômicas para conter crise e tentar amenizar os efeitos das restrições que passam a valer nesta terça, população compra ouro e pensa em se mudar para a Europa

O Estado de S.Paulo

07 Agosto 2018 | 11h38

TEERÃ - De olho no impacto da reimposição das sanções dos Estados Unidos contra o Irã, Saeed Mohammadi, encanador de 38 anos morador de Teerã, sabia o que tinha que fazer. Na semana passada, como muitos outros iranianos, comprou US$ 1 mil em ouro, cujo valor tem subindo constantemente no mercado local. "Lucrarei um pouco, o que me ajudará a me manter por um tempo", disse Mohammadi.

Nas horas que antecederam a retomada das restrições a Teerã, ficou claro que o regime do presidente Hassan Rohani tentou se preparar nos últimos tempos para as prováveis dificuldades decorrentes da decisão do governo de Donald Trump.

Nos últimos meses, Teerã acumulou moeda estrangeira e cortou importações desnecessárias. Mas outras importações foram apressadas para serem concluídas antes de as portas do mercado internacional se fecharem para o país novamente, nesta terça.

No domingo à noite, por exemplo, cinco aviões de passageiros turboélice de 70 assentos construídos por um consórcio italiano e francês aterrissaram no Aeroporto Internacional Mehrabad, em Teerã, capital do Irã. 

Com a volta das sanções, o país ficará impedido de comprar aeronaves, apesar dos acordos que a Iran Air assinou com a Boeing e Airbus, e a necessidade de aviões mais seguros: cerca de 2.000 pessoas morreram em acidentes aéreos no país nas últimas duas décadas.

Na noite de segunda, o presidente Rohani disse que o Irã poderia resistir à pressão americana se os iranianos se unissem. Descrevendo como "guerra psicológica" uma oferta feita por Trump no mês passado para negociações "sem condições prévias", Rohani disse que o Irã precisaria ver "sinceridade" dos EUA para se envolver em qualquer negociação.

"Foram eles que deixaram o resultado das negociações (de 2015)", disse Rohani, referindo-se à decisão de Trump, em maio, de retirar os EUA do acordo nuclear de 2015 entre o Irã e seis grandes potências.

"Alguém que se oferece para manter conversações deve inicialmente provar que eles visam resolver questões através de negociações", acrescentou o presidente iraniano. "Que sentido fazem as negociações quando nos impõem sanções?"

Ele, no entanto, deixou aberta uma opção para as negociações, dizendo que "o Irã sempre acolheu as negociações, se houver sinceridade".

As novas sanções americanas proíbem qualquer transação com o Irã envolvendo dólares, ouro, metais preciosos, alumínio, aço, aviões comerciais de passageiros e carvão. Elas também acabam com as importações para os EUA de tapetes e pistaches iranianos. Uma nova leva de sanções deve passar a valer em 4 de novembro.

Os outros países que assinaram o acordo nuclear de 2015 - Grã-Bretanha, China, França, Alemanha e Rússia - não apoiam as sanções dos Estados Unidos, que o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, disse em maio que seriam as "mais fortes da história".

O governo iraniano tentou acalmar os mercados na segunda-feira antes do início das sanções, apesar de ainda não estar claro até que ponto essas medidas serão eficazes. A moeda do Irã, o rial, subiu levemente durante o dia, mas perdeu mais de 80% de seu valor nos últimos 12 meses. E, apesar de grande parte da desvalorização ser resultado da má administração e da corrupção, a retirada dos EUA do acordo nuclear exacerbou o enfraquecimento do rial.

O novo presidente do Banco Central do Irã, Abdolnaser Hemmati, disse na noite de domingo de uma "guerra econômica" dos EUA, mas também disse em uma entrevista na TV estatal que o Irã é "poderoso".

Em uma tentativa de aliviar as dificuldades econômicas no país, ele anunciou que a partir da segunda, os iranianos não teriam mais restrição em relação à quantidade de dólares e ouro que poderiam trazer para o país. Uma regra anterior limitou esse valor a 10.000 euros, ou cerca de US$ 11.500.

Hemmati também anunciou que o governo subsidiaria medicamentos e comida para garantir que todos pudessem comprar bens essenciais e suspenderia a proibição do comércio de moedas estrangeiras.

"Com a (volta das) sanções dos EUA, estamos abrindo nossos mercados", disse Hemmati, cujo antecessor foi colocado em uma lista de iranianos sob sanções de Washington em maio.

Também na segunda, o presidente Rohani disse que 1.500 itens teriam a importação proibida para que o governo possa economizar moeda estrangeira para itens mais urgentes. 

Para a maioria dos cidadãos iranianos, no entanto, as medidas e os anúncios feitos pelo governo até agora ainda não foram suficientes para acabar com todas as dúvidas e preocupações sobre o futuro do país.

No sudoeste de Teerã, Amir Sherafari encerrava as atividades de sua modesta loja de frutas e verduras na segunda-feira.  Juntamente com seu irmão, que tem mestrado em ciência política, Sherafari, de 38 anos, usou as economias de seu pai para alugar o espaço. Nas últimas semanas, porém, não atenderam nenhum cliente.

"As pessoas estão pensando duas vezes antes de comprar até mesmo um sorvete", disse Sherafari, ressaltando que não acredita na capacidade do presidente iraniano de mudar a situação do país.

"Ele está preso entre os linha-dura do Irã e os americanos", opinou o comerciante. "Estou pensando em me tornar taxista ou migrar para a Europa. Estas são as únicas soluções." / NYT

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