Governo e milicianos retomam conversas de paz na Somália

O governo interino da Somália e o movimento islâmico que governa a maior parte do país africano chegaram a um acordo para retomarem as negociações de paz, segundo fontes oficiais e um enviado da União Européia.O acordo, no entanto, foi anunciado em um dia marcado por intensos combates nas redondezas da única cidade que está sob controle do governo reconhecido internacionalmente - o que sublinha as dificuldades que serão enfrentadas pelos negociadores para conseguir a paz nesse caótico país do Chifre da África.Mais tarde, um ministro do gabinete somali disse que o governo quer negociar, mas ressalvou duvidar que seus rivais estejam realmente dispostos.O movimento islâmico quer "tomar o controle na Somália com o uso das armas", provocou o ministro do Exterior Ismail Hurre, em entrevista à Associated Press. "Eles não estão comprometidos com a paz. Eles querem guerra."Mas, segundo um enviado da União Européia à Somália, o movimento islâmico teria "aceitado se engajar no diálogo político com o governo interino". Fontes oficiais somalis também confirmaram a retomada do diálogo, o qual, segundo disseram, ocorrerá em Cartum, no Sudão. A data do início dos contatos não foi revelada."Estou totalmente satisfeito com o fato de o Conselho das Cortes Islâmicas ter concordado em iniciar um diálogo político com o governo de transição", disse o delegado da UE, Louis Michel.Os dirigentes do movimento islâmico disseram que participarão das negociações sem apresentar condições prévias. Anteriormente, haviam dito que apenas participariam se as forças etíopes que apóiam o governo se retirassem do país.CombatesMais cedo nesta quarta-feira, soldados leais ao governo interino e milicianos do Conselho das Cortes Islâmicas protagonizaram violentos confrontos perto do local em que o enviado europeu tentava convencer os líderes locais a se engajarem num processo de paz.Os choques ocorreram em duas aldeias situadas a aproximadamente 15 quilômetros de Baidoa, única cidade sobre a qual o governo provisório tem controle.O líder islâmico Xeque Hassan Dahir Aweys minimizou a troca de tiros. "Não se trata de uma guerra", disse ele após um encontro com Michel. "A batalha foi um pequeno incidente entre as Cortes Islâmicas e os Etíopes, e não entre nós e o governo."Entretanto, testemunhas afirmam que ao menos sete soldados do governo morreram e 18 ficaram feridos nos embates.O anúncio do acordo sobre as negociações de paz foi feito por Michel após um encontro com o primeiro-ministro Ali Mohamed Gedi e com o presidente Abdullahi Yusuf.AnarquiaA Somália vive uma situação de virtual anarquia desde 1991, quando senhores da guerra derrubaram o governo local. O resultado da deposição foi a criação de um governo interino respaldado pela ONU, em Baidoa. Apesar da medida, o poder de fato continuou dividido por líderes tribais. Uma unificação parcial só acontece agora, com a tomada de Mogadiscio pelas das Cortes Islâmicas, que querem impor a lei islâmica ao país.A ONU, por sua vez, teme que a disseminação do conflito na Somália se amplie para uma guerra regional no extremo leste do continente, na região conhecida como "Chifre da África". Estima-se que ao menos 8 mil soldados etíopes atuem na Somália dando apoio ao governo interino, enquanto outros 2 mil homens da Eritréia ajudem as Cortes Islâmicas.Outra preocupação da comunidade internacional são as alegações de que as Cortes Islâmicas teriam ligação com terroristas internacionais, entre os quais a Al-Qaeda.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.