Governo e oposição de Israel cobram de Lula atitude mais firme contra Irã

Recado. Líder brasileiro diz que América Latina é 'exemplo a ser seguido' de zona livre da ameaça nuclear e evita citar caso iraniano

Denise Chrispim Marin, ENVIADA ESPECIAL / JERUSALÉM, O Estadao de S.Paulo

16 de março de 2010 | 00h00

Partidos de oposição e situação de Israel uniram-se ontem para criticar a aproximação do Brasil com o Irã e fazer um apelo para que o governo brasileiro apoie as sanções do Conselho de Segurança das Nações Unidas contra Teerã.    

 

Veja também:

linkNo Parlamento, líder brasileiro critica assentamentos

linkChanceler de Israel boicota discurso de Lula no Parlamento

O consenso das frentes políticas israelenses foi exposto diretamente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que se mostrou preparado para absorver o golpe desferido em sessão especial do Parlamento de Israel (Knesset). Em sua vez de discursar, Lula não mencionou a palavra Irã. Acentuou que a América Latina firmou um tratado que tornou a região livre de armas nucleares (Tlatelolco, de 1967) e lembrou que o Brasil conta com proibição constitucional à produção e ao uso de armamento atômico.

"Gostaríamos que o exemplo de nosso continente pudesse ser seguido em outras partes do mundo", afirmou, referindo-se às suspeitas sobre o programa iraniano e também ao fato de Israel possuir a bomba.

A posição brasileira em relação ao Irã foi alvo de duras críticas do presidente da Knesset, Reuven Rivlin, do premiê, Binyamin "Bibi" Netanyahu (ambos do partido Likud), e da líder da oposição, Tzipi Livni. "Não acho que houve um rolo compressor. Já era esperada (essa posição unânime)", reagiu o chanceler Celso Amorim.

O chanceler israelense, Avigdor Lieberman, decidiu boicotar Lula depois que o brasileiro supostamente se esquivou de prestar homenagem ao fundador do sionismo, Theodor Herzl. (Mais informações nesta página).

Em referência ao Brasil, Rivlin advertiu que "os países devem acordar da sonolência para enfrentar as bases satânicas desse regime dos aiatolás" e argumentou que uma posição contrária às sanções ao Irã daria um "sinal de fraqueza".

Perigo iraniano. Por fim, fez um apelo para que o País se una aos que reconhecem o "perigo iraniano" e aprove sanções. Lógica semelhante à que foi exposta por Bibi.

"Peço e espero que o Brasil apoie a frente internacional que se está cristalizando contra o armamentismo do Irã", disse o premiê. "Eles têm valores diferentes dos nossos e usam da crueldade. Eles adoram a morte e vocês (brasileiros) adoram a vida. Eles apoiam o terror e são o eixo fundamental contra a estabilidade e a paz no Oriente Médio."

A líder da oposição na Knesset defendeu o isolamento do Irã, por meio da aplicação de sanções, e sua expulsão da ONU - medida de retaliação política que, pela manhã, havia sido insinuada pelo presidente de Israel, Shimon Peres, a Lula.

Livni afirmou que Teerã se aproveita de sua aproximação com a América Latina. "O Brasil não pode dar legitimidade ao Irã", afirmou Livni, chanceler entre 2006 e 2009. "O Irã testa os limites do mundo livre. É preciso uma decisão enérgica e corajosa agora."

Respeito e amizade. O choque de posições entre o Brasil e Israel sobre a questão iraniana foi repetido, com mais argumentos e detalhes, durante o encontro reservado de Lula e Netanyahu. A reunião durou uma hora e meia e foi aliviada pela proposta do premiê de criar um mecanismo de consultas entre os chefes de governo e ministros dos dois países a cada dois anos. Lula pediu que a primeira reunião ocorra no Brasil em 2010.

Segundo Amorim, a franqueza dos dois lados foi combinada com sinais de respeito e amizade. A Netanyahu, Lula defendeu que ainda há espaço para o diálogo com o Irã.

"Vírus da paz"

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA

PRESIDENTE DO BRASIL

"Tenho o vírus da paz desde que estava no útero da minha mãe" (durante discurso a empresários brasileiros e israelenses)

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.