Governo e oposição iniciam diálogo

Delegados de Evo e autonomistas reúnem-se em La Paz para tentar pôr fim ao conflito que já deixou 30 mortos

Renata Miranda, SANTA CRUZ, BOLÍVIA, O Estadao de S.Paulo

15 de setembro de 2008 | 00h00

Um crucial diálogo para restabelecer a paz na Bolívia foi retomado ontem no palácio presidencial em La Paz entre membros do governo e um representante dos quatro departamentos (Estados) de oposição. Os dois lados deveriam discutir como acabar com os violentos protestos que tomam conta do país e já deixaram 30 mortos na região de Pando, para onde o Exército foi enviado para conter a situação. Acompanhe a reunião dos países da Unasul Entenda os problemas na Bolívia"O governo tem a ampla disposição de discutir questões de fundo, entre elas a restituição do imposto do gás e petróleo às regiões e os estatutos autonômicos", assegurou ontem o vice-presidente Álvaro García Linera antes da reunião. Mas ele acrescentou que o governo "não negociará um acordo sobre os mortos" no Departamento de Pando, que "foram responsabilidade do governo da região", Leopoldo Fernández.O presidente boliviano, Evo Morales, mostrou-se disposto a revisar seu projeto de Constituição e a questão da autonomia dos departamentos de Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija, que recentemente aprovaram em consulta popular um estatuto autonômico. Os departamentos também exigem a restituição dos impostos, que La Paz confiscou para criar um fundo de pensão para idosos. O governador de Tarija, Mario Cossío, escolhido como representante da oposição para a reunião em La Paz, disse que esperava um resultado positivo do encontro. "O governo tem expectativas e nós também. Todos querem a paz no país, mas para isso os dois lados têm de ceder." Cossío afirmou ainda que a oposição quer enviar uma comissão de representantes para o encontro da União das Nações Sul-Americanas que discutirá a crise boliviana hoje, no Chile .Em protesto contra a convocação do referendo constitucional para 7 de dezembro, os opositores começaram a tomar na semana passada prédios públicos e bloquear estradas em todo o território boliviano. Os opositores são contra o projeto de Constituição, pois, segundo eles, o texto não prevê pontos estabelecidos em seus referendos autonômicos. A oposição boliviana quer a participação do Brasil nas negociações com o governo Evo. O governador oposicionista do Departamento de Santa Cruz, Rubén Costa, disse ontem que o "Brasil é uma garantia de que a crise pode ter uma solução".O presidente do Comitê Pró-Santa Cruz, Blanco Marinkovic, ordenou ontem o desbloqueios das estradas como um gesto de boa vontade para com o governo de Evo. Ele pediu que, em troca, o governo levantasse o estado de sítio imposto na sexta-feira ao Departamento de Pando, onde ocorreram os piores incidente de violência.Os governadores opositores Rubén Costas (Santa Cruz), Mario Cossío (Tarija) e Ernesto Suárez (Beni) tentaram viajar para Cobija, capital de Pando, mas a agência de controle aéreo cancelou o vôo por falta de segurança na cidade.Soldados do Exército patrulhavam as ruas de Cobija ontem para tentar conter a onda de violência entre partidários do governo e opositores, que já deixou 30 mortos. Entre os feridos nos confrontos está o brasileiro Jonas Rodrigues Sousa, de 22 anos. A Embaixada do Brasil em La Paz afirmou que outros dois cidadãos brasileiros podem ter ficado feridos nos confrontos. "A recomendação aos brasileiros é que evitem passar para o lado boliviano da fronteira à noite", disse ao Estado o vice-cônsul do Brasil em Cobija, Julio Miguel da Silva.Evo acusou os partidários do governador de Pando de ordenar o massacre dos camponeses e La Paz emitiu uma ordem de prisão contra Fernández por violar a Constituição. No sábado, Evo também acusou o governador de usar "mercenários brasileiros e peruanos" na matança. Fernández negou as acusações. O governo anunciou que está em contato com Brasília para negociar a prisão de brasileiros armados que teriam cruzado a fronteira.

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