Governo egípcio declara Irmandade Muçulmana 'terrorista' e bane grupo

Pós-Mubarak. Gabinete interino instalado pelos militares culpa maior organização islamista do país por atentado de segunda-feira contra delegacia e abre caminho para escalada na repressão: facção nega qualquer envolvimento e condena ataque a bomba

CAIRO, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2013 | 02h07

O governo interino do Egito culpou ontem a Irmandade Muçulmana pelo atentado que deixou 16 mortos na segunda-feira, declarando que a maior organização política do país é um "grupo terrorista" e todas as suas atividades estão oficialmente banidas. O anúncio representa uma inesperada escalada por parte dos militares que em julho derrubaram o presidente Mohamed Morsi, eleito pelo partido da Irmandade.

A organização islamista negou qualquer envolvimento e condenou o ataque a bomba contra um posto policial em Mansoura, no Delta do Nilo, no início da semana. Além dos 16 mortos, mais de 100 egípcios ficaram feridos na explosão. O Ansar Bayt al-Maqdis, grupo jihadista que atua na Península do Sinai e é ligado à Al-Qaeda, reivindicou a autoria do atentado, mas o governo interino egípcio afirma que é a Irmandade quem está por trás da explosão.

Ao final de uma longa reunião de emergência do gabinete instalado pelos militares, o ministro da Educação, Hossam Eissa, leu em rede nacional um comunicado: "Declaramos a Irmandade Muçulmana e todas as suas organizações como grupos terroristas". A decisão, disse Eissa, é uma "resposta" ao atentado de segunda-feira.

"O Egito ficou horrorizado, de norte a sul, pelo crime hediondo cometido pela Irmandade Muçulmana. Isso ocorreu no contexto de uma perigosa escalada da violência contra o Egito e os egípcios. A Irmandade Muçulmana mostrou que não sabe agir a não ser por meio da violência", continuou o ministro. Eissa, entretanto, não mostrou provas que ligassem o grupo ao ataque em Mansoura.

Desde que derrubaram Morsi, no dia 3 de julho, os militares egípcios lançaram um duro cerco contra a Irmandade. Semanas após o golpe, centenas - ou, segundo algumas fontes, milhares - de integrantes da organização islamista foram mortos em um protesto no centro do Cairo, depois que policiais e soldados do Exército abriram fogo contra a multidão. Estima-se que a Irmandade, um híbrido de partido e instituição de caridade, tenha mais de um milhão de filiados no Egito.

Ontem, líderes do grupo garantiram que não cessarão as atividades, apesar do banimento oficial. "Essa decisão não tem valor para nós. Ela não vale nem sequer o papel em que foi escrita", disse Ibrahim Elsayed, do comando político do grupo.

De volta. Criada em 1928, a Irmandade foi banida em 1954, com a chegada dos militares ao poder no Cairo, e assim permaneceu até a queda de Hosni Mubarak, em fevereiro de 2011. Depois de um relativo silêncio no início dos protestos que levaram ao fim do regime Mubarak, a organização fundou seu próprio partido, o Liberdade e Justiça, e foi a grande vencedora das primeiras eleições livres do Egito, tanto para o Parlamento quanto para a presidência.

Com amplos poderes no Executivo e no Legislativo, porém, a organização começou a sofrer dura resistência. Ao aprovar uma Constituição inspirada na lei islâmica, em novembro, e tentar centralizar cada vez mais o poder, Morsi começou a enfrentar protestos de milhões de egípcios e acabou deposto. / REUTERS e AP

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