JAVIER SORIANO / AFP
JAVIER SORIANO / AFP

Governo espanhol inicia procedimento legal para exumar Franco

Corpo do ditador foi enterrado em complexo imponente construído por quase 20 mil presos políticos; críticos consideram local de sepultamento um insulto às famílias de vítimas da repressão franquista

O Estado de S.Paulo

24 Agosto 2018 | 15h07

MADRI - O governo da Espanha aprovou nesta sexta-feira, 24, um decreto para exumar o corpo do ditador Francisco Franco de um mausoléu nas proximidades de Madri. A decisão provoca divergências políticas no país, que tem dificuldades para lidar com questões do passado, e foi tomada mesmo com a família do ditador se opondo à ação.

Para concretizar a medida, o governo do primeiro-ministro Pedro Sánchez optou por um decreto-lei, que deverá ser aprovado pela Câmara Baixa do Parlamento em setembro, onde a minoria socialista espera alcançar a maioria com o apoio da esquerda radical do partido Podemos e dos nacionalistas bascos e catalães.

A exumação dos restos mortais que estão no Valle de los Caídos, um imponente conjunto monumental, provavelmente ocorrerá no fim do ano, afirmou a vice-primeira-ministra Carmen Calvo. "Não podemos perder nem um só instante", completou, criticando o "túmulo de Estado" do ditador. "Não há uma democracia comparável que tenha sustentado uma situação como a que sustentamos por mais de 40 anos".

Após a exumação, a solução lógica seria enviar os restos mortais para o túmulo que a família Franco tem no cemitério El Pardo, na região de Madri.

Os descendentes do "generalíssimo" são contrários à medida, mas Carmen Calvo explicou que o governo está preparado para todas as eventualidades. Se a família não indicar um novo local ou continuar contrária à medida, o Executivo "decidirá para qual local digno e respeitoso serão levados os restos mortais de Franco".  

Complexo

Desde 23 de novembro de 1975, três dias depois de sua morte, o corpo do general Franco, vencedor da Guerra Civil Espanhola (1936-1939), está no Valle de los Caídos. Trata-se de um grande complexo a 50 quilômetros de Madri, com uma basílica ornada com uma cruz de 150 metros de altura. O militar que governou o país de 1939 a 1975 está enterrado no altar da basílica sob uma laje, sempre coberta por flores frescas, assim como o fundador do partido fascista Falange, José Antonio Primo de Rivera.

No mesmo complexo foram sepultados quase 27 mil combatentes franquistas e 10 mil opositores republicanos, motivo pelo qual o ditador apresentou o Valle como um local de "reconciliação". Os críticos, no entanto, o consideram um insulto às vítimas da repressão franquista, porque os corpos dos republicanos, retirados de cemitérios e valas comuns, foram levados até o local sem o consentimento de suas famílias. Além disso, o conjunto monumental foi construído por quase 20 mil presos políticos, entre 1940 e 1959.

Divisão

Pedro Sánchez defendeu a iniciativa poucos dias depois de chegar ao poder, alegando que um lugar como o Valle de los Caídos seria inimaginável em países como Alemanha ou Itália. Os socialistas afirmam que desejam transformar o Valle de los Caídos em um verdadeiro local de reconciliação e memória, sem apresentar detalhes sobre como pretendem modificar um conjunto monumental de forte caráter católico e idealizado pelo próprio Franco.

O governo insiste que a exumação foi objeto de uma proposta aprovada no Parlamento em maio de 2017 sem votos contrários, quando o Executivo era comandado pelo conservador Partido Popular, agora na oposição. Mas em um país onde a memória sobre a guerra e a ditadura continua sendo um tema controverso, todos os projetos esbarram na oposição da família do ditador, da Fundação Francisco Franco, que reivindica sua memória e insiste na necessidade de não reabrir "antigas feridas".

Os conservadores já informaram que pretendem recorrer ao Tribunal Constitucional contra a exumação, pois consideram abusivo o uso de um decreto-lei para um tema que não é urgente. "Os socialistas estão mais interessados em abrir as trincheiras fechadas e as cicatrizes já cicatrizadas de nosso pior passado, ao invés de concentrar-se em nosso melhor presente", afirmou Pablo Casado, líder do PP. / AFP 

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