REUTERS/Juan Medina
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Governo espanhol rejeita negociar secessão da Catalunha

Um dia após os partidos separatistas vencerem as eleições legislativas, Rajoy diz que eles não têm o apoio da maioria dos catalães

Andrei Netto, CORRESPONDENTE, PARIS, O Estado de S. Paulo

28 Setembro 2015 | 20h06

O primeiro-ministro da Espanha, Mariano Rajoy, afirmou nesta segunda-feira que não dialogará com os movimentos separatistas que pressionam pela secessão do país e pela independência da Catalunha. Um dia após as eleições legislativas que deram a dois partidos pró-separação a maioria no Parlamento regional – mesmo sem a maioria dos votos –, o premiê prometeu que não permitirá que a Espanha seja dividida.

A advertência foi feita horas após o líder independentista catalão, Artur Mas, confirmar que pretende começar o processo de independência em até 18 meses.

As eleições parlamentares na Catalunha ocorreram no domingo e tiveram a vitória da coalizão independentista Juntos pelo Sim e da Candidatura de Unidade Popular (CUP). Unidos a outro partido soberanista que ficou em quarto lugar, os movimentos separatistas tiveram um total de 72 deputados eleitos, mais do que a maioria absoluta de 68 votos dentre os 135 parlamentares. Por outro lado, o movimento que defende a secessão da Espanha somou apenas 47,5% dos votos. Um total de 51,7% de eleitores votou por partidos contrários à independência. 

Essa situação estimulou Rajoy a endurecer a resposta aos partidos que prometem a independência unilateral da Catalunha. Falando em La Moncloa, o palácio do governo, o primeiro-ministro prometeu que dialogará com “lealdade institucional” com o novo governo da comunidade autônoma catalã – e está “disposto a escutar e conversar”, mas não abriu as portas à independência. 

“Os partidários da ruptura nunca tiveram o respaldo da lei e não têm o apoio da maioria da sociedade catalã”, argumentou Rajoy, que contabilizou a abstenção em seus cálculos. “Não chegam a quatro em cada dez catalães os que votaram por um programa de ruptura”, ressaltou o premiê.

Rajoy prometeu que, enquanto for chefe de governo na Espanha, não permitirá que o país seja dividido. A declaração tem tom de campanha eleitoral, já que o país realizará em 20 de dezembro eleições gerais que definirão quem será o novo primeiro-ministro. “Enquanto eu for chefe do governo, não discutirei jamais a unidade da Espanha, a soberania nacional ou a liberdade dos espanhóis”, garantiu o líder.

Impasse. Entre os vencedores da eleição de domingo, o momento é de busca do consenso em torno do nome que governará a comunidade da Catalunha. O nome de Artur Mas, um dos líderes da campanha pelo separatismo, enfrenta resistências nos partidos da coalizão. De acordo com Anna Gabriel, uma das líderes da Unidade Popular, o partido também não apoiará nenhuma declaração unilateral de independência da Catalunha, o que contraria a posição de Mas, que promete a separação em até 18 meses.

Para o partido, a secessão deve ser buscada ao longo da gestão que assumirá a Catalunha na próxima legislatura. “A independência da Catalunha é a opção majoritária e o caminho que terá de ser seguido”, afirmou Antonio Baños, outro dos líderes da CUP. “Temos maioria de votos (no Parlamento) para o processo constituinte.”

Com 7,5 milhões de habitantes, a Catalunha independente seria a 14.ª maior economia da União Europeia – ainda que sua admissão no bloco econômico não seja garantida por Bruxelas, pois poderia ser vetada pela Espanha.

Embora rica e com um PIB per capita maior do que a média do bloco, a Catalunha sofreria o impacto da separação. Um estudo da Universidade de Barcelona indicou, por exemplo, que só para a organização de um Estado independente seriam necessários € 39 bilhões em investimentos. 

Além disso, o processo demoraria mais do que os 18 meses prometidos por Mas. Mesmo assim, a secessão é uma bandeira bem aceita até mesmo nos meios acadêmicos. “É algo fundamentado em dados e relatórios sólidos sobre o modelo econômico, político e internacional que se pode implantar nos próximos dois anos”, diz o cientista político Ferran Requejo, professor da Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona.

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