AFP / PHILIPPE HUGUEN
AFP / PHILIPPE HUGUEN

Governo francês decide acabar com campo de refugiados de Calais

Acampamento irregular à beira do Canal da Mancha transformou-se em símbolo da degradante situação dos imigrantes na Europa

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S. Paulo

12 de fevereiro de 2016 | 21h03

O Ministério do Interior da França decidiu nesta sexta-feira acabar com um dos símbolos mais humilhantes da imigração na Europa: o acampamento de Calais, espécie de favela em que se concentram os estrangeiros que desejam atravessar o Canal da Mancha, da França para a Grã-Bretanha.

A decisão foi confirmada pela administração regional de Pas-de-Calais e segue uma ordem de Paris. A medida significa a retirada de até mil pessoas que vivem em uma área de 7 hectares de barracos. Na prática, a “selva” será reduzida pela metade nas próximas semanas e todas as habitações na área serão destruídas.

Seus ocupantes terão a opção de aceitar uma vaga no Centro de Acolhimento Provisório (CAP), uma estrutura montada pelo Estado francês nas imediações, ou optar por uma vaga em um dos Centros de Acolhimento e Orientação (CAO) abertos em outubro em 70 cidades da França, segundo informou a prefeita de Pas-de-Calais, Fabienne Buccio.

Para isso, a capacidade dos centros alternativos vem sendo ampliada. No CAP, as 1,5 mil vagas disponíveis em contêineres e organizados com água, luz e aquecimento, situam-se em um terreno cercado por grades. “Mais 750 lugares suplementares serão oferecidos em contêineres a partir de hoje e nós abriremos, se for necessário, novos lugares em centros de acolhimento”, disse a prefeita ao Le Monde.

As transferências já realizadas envolvem em especial imigrantes afegãos e sírios, que já deixaram as tendas. Uma igreja evangélica que havia sido montada com lona e madeira já foi destruída – o que provocou protestos.

O objetivo do governo é acabar com um dos símbolos degradantes da imigração em solo europeu. Sem aceitar que a ONU criasse um campo de refugiados no local, o Ministério do Interior acabou permitindo que os imigrantes ocupassem de forma ilegal o terreno.

O local transformou-se em um dos emblemas do impasse causado pela falta de políticas migratórias na Europa. A pedido do primeiro-ministro da Grã-Bretanha, David Cameron, a passagem para o território britânico foi bloqueada para estrangeiros pelo governo francês, criando um limbo. Desesperados, muitos se arriscam em trens, barcos e caminhões que atravessam o Canal da Mancha.

No seu auge, mais de 6 mil pessoas viveram na “selva”. As estimativas atuais variam entre 3,7 mil, segundo as autoridades, e 4,5 mil, de acordo com ONGs.

Um dos problemas do local é a tensão crescente entre imigrantes, parte dos residentes de Calais e a polícia. Nos últimos dias, imigrantes prestaram queixa contra a polícia e contra moradores de Calais por agressões.

Um grupo de juristas e advogados do Legal Center de Calais, uma ONG que presta auxílio jurídico aos estrangeiros, registrou ontem uma série de queixas na Justiça em Boulogne-sur-Mer, município vizinho. 

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