Governo francês tenta esfriar debate sobre eutanásia

O primeiro-ministro Jean-Pierre Raffarin pediu hoje aos franceses que respeitem, com silêncio e discrição, a dor da família do jovem tetraplégico Vincent Humbert, que teve a ajuda da mãe para morrer. "A vida não pertence aos políticos", disse. "Frente ao drama de uma mãe, peço que todos tenham a máxima reserva", pediu Raffarin. O caso de Vincent, morto na sexta-feira, comoveu os franceses e reacendeu o debate sobre a eutanásia, proibida na França. Em toda a Europa, só a Bélgica e a Holanda admitem a prática, mesmo assim sob regras legais bastante rígidas. Aos 22 anos, Vincent não movimentava braços nem pernas, estava mudo e parcialmente cego. As lesões foram provocadas por um acidente de trânsito. Diante desse quadro, o rapaz planejou sua morte, contando com a ajuda da mãe, Marie Humbert. Ele até divulgou sua intenção por meio da imprensa. Só não revelou a data. Vincent morreu dois dias depois de Marie ter injetado barbitúricos no soro intravenoso do filho, durante uma visita ao hospital. O rapaz permanecia internado há três anos. Marie disse que queria dar ao filho o "presente da morte, depois de ter dado a ele o da vida". Com esse argumento, ela desafiou a lei, foi detida pela polícia e terá de responder a inquérito. Quebrando o tradicional sigilo da medicina, os médicos que cuidavam de Vincent disseram que decidiram limitar "o tratamento ativo" do rapaz. Ele morreu horas depois de receber os barbitúricos. Três anos de sofrimento Vincent Humbert vivia no hospital na pequena cidade de Berck-sur-Mer desde 2000, quando sofreu um acidente de trânsito. Desde então, sua vida ficou restrita ao leito hospitalar. Durante os nove primeiros meses de internação, Vincent ficou em coma. Ao voltar à consciência, tudo o que conseguia movimentar era o polegar esquerdo. Com o tempo, ele desenvolveu um sistema de código. Toques do polegar indicavam as letras do alfabeto. Não demorou muito para o rapaz descobrir que não queria continuar vivendo. Em novembro de 2002, ele chegou a pedir autorização do presidente Jacques Chirac para que pudesse morrer. Chirac escreveu e telefonou para Vincent no hospital, explicando que não podia dar tal autorização. O passo seguinte foi todo o planejamento que Vincent começou a fazer com sua mãe. Ele teve ainda forças para escrever um livro, contando toda sua história. Marie confessou ter executado o plano para pôr fim à vida do filho no terceiro aniversário do acidente e no mesmo dia do lançamento do livro Peço o Direito de Morrer. "Estou muito contente que ele esteja finalmente livre", disse Laurent, irmão mais novo de Vincent em entrevista à rede de televisão LCI. "É um enorme alívio." Alívio para a família, desafio para os políticos franceses. Com o caso do jovem Vincent, legalizar ou não a eutanásia entrou na ordem do dia dos debates no país.

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