Governo impediu autópsia de Benazir

Direção do hospital afirma que médicos foram alvo de pressões

The New York Times, Reuters, Islamabad, O Estadao de S.Paulo

31 de dezembro de 2007 | 00h00

A direção do Hospital-Geral de Rawalpindi, para onde a ex-premiê paquistanesa Benazir Bhutto foi levada após sofrer um atentado na quinta-feira, acusou o governo de impedir que os médicos realizassem uma autópsia para determinar a causa da morte da líder da oposição. Autoridades paquistanesas afirmam que Benazir morreu ao bater a cabeça na alavanca do teto solar do carro onde estava, mas os parentes e o Partido Popular do Paquistão (PPP) da ex-premiê acreditam que ela tenha sido atingida por disparos de um atirador. A revelação deve aumentar ainda mais a tensão no país, que vive uma de suas piores crises políticas.Athar Minallah, membro da direção do hospital e advogado, divulgou ontem um relatório médico e uma carta aberta que revelam que o chefe de política de Rawalpindi, Saud Aziz, "não concordou" com a autópsia pedida pelos médicos e obrigatória em casos de assassinato. O relatório ressalta que "sem uma autópsia não seria possível ter certeza sobre o que causou o ferimento". O documento revela ainda que os médicos tentaram reanimar a ex-premiê durante 41 minutos. "A paciente estava sem pulsação e não respirava. Havia uma ferida na região da têmpora direita", indicou o relatório. Partidários de Benazir que estavam ao lado dela disseram que o interior do veículo estava coberto de sangue e os médicos também informaram que "suas roupas estavam encharcadas de sangue".No domingo, emissoras de TV divulgaram novas imagens de vídeo do momento do atentado, que mostram a ex-premiê caindo logo após o disparo de tiros, numa forte indicação de que ela teria sido atingida.O advogado disse ainda que um dos médicos que atendeu a líder da oposição, Mohammad Mussadiq Khan, disse-lhe na noite de quinta-feira que Benazir havia morrido em conseqüência de um ferimento de bala. Khan não quis falar com jornalistas, alegando ser funcionário de um hospital do governo, e temendo represálias das autoridades se não apoiasse a versão oficial dos fatos.O veículo da ex-premiê foi atacado quando ela deixava um comício em Rawalpindi, onde o Exército paquistanês tem seu quartel-general e a poderosa agência de inteligência do governo mantém uma forte presença. Para especialistas, a insistência das autoridades de que Benazir não morreu em conseqüência de um tiro, tem como objetivo desviar a atenção sobre a falta de segurança oficial alocada à ex-premiê. "Se houve um ferimento provocado por um tiro, a segurança era mínima. O governo não quis ficar exposto, acusado de manter um serviço de segurança negligente", afirmou Bruce Riedel, especialista em Paquistão do centro de estudos Brookings Institution, em Washington, e ex-membro do Conselho de Segurança Nacional durante o governo de Bill Clinton. INVESTIGAÇÃOApesar de a autopsia ter se tornado ponto crucial para acabar com a discussão, o marido de Benazir, Asif Ali Zardari, disse no domingo que não daria autorização. "Seria uma ofensa à minha esposa, uma ofensa à irmã da nação, à mãe da nação. Sei que os relatórios forenses são inúteis. E me recuso a dar a eles os restos mortais dela", disse. Em circunstâncias normais, uma autópsia é contrária à crença islâmica, segundo a qual não se deve mexer num corpo, que deve ser enterrado o mais rápido possível. Zardari pediu que ONU e o governo da Grã-Bretanha ajudem nas investigações sobre o caso. Em conversa por telefone com o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, Musharraf mostrou-se aberto à proposta, que criaria uma equipe de investigação similar à usada na morte do ex-premiê libanês Rafic Hariri em fevereiro de 2005. O chanceler britânico, David Miliband, afirmou que seu país está disposto a oferecer qualquer ajuda que seja necessária. A presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, Nancy Pelosi, disse que a administração do presidente americano, George W. Bush deve condicionar sua ajuda futura ao Paquistão à disposição do país em garantir uma investigação internacional independente.

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