Governo incentiva ataque à imprensa, diz ''Clarín''

Principal jornal da Argentina acusa a Casa Rosada de omissão por não atuar contra o piquete que impediu a circulação de sua edição de domingo

Marina Guimarães, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2011 | 00h00

O jornal argentino Clarín acusou ontem o governo da presidente Cristina Kirchner de ter sido omisso no episódio do piquete que impediu a circulação de sua edição de domingo. "O governo não fez nada para evitar o bloqueio, nem para cumprir a ordem judicial que garante o direito de livre circulação do jornal", disse ao Estado o editor geral adjunto do Clarín, Ricardo Roa.

Esse foi o quinto piquete nos últimos cinco meses, mas o primeiro a impedir a total distribuição do jornal. "Nem nos tempos da ditadura fomos impedidos de circular. É a primeira vez em 65 anos que deixamos de ser distribuídos", lamentou Roa.

Em janeiro, o Clarín obteve uma liminar para evitar que qualquer manifestação em sua gráfica impedisse a circulação do jornal. No domingo, porém, os poucos policiais que apareceram não tentaram dissipar o piquete. "Foi uma ação de intimidação política, um aperto para que não se fale de corrupção", disse o jornal em seu editorial, em referência a uma reportagem sobre o incremento do patrimônio do líder sindical Hugo Moyano, aliado de Cristina.

Em sua primeira edição após o piquete, o Clarín publicou duas capas: uma em branco, para repudiar o bloqueio; outra habitual, com títulos e chamadas. "A capa em branco é um símbolo do silêncio forçado", escreveu o editor geral, Ricardo Kirschbaum.

O jornal é o maior da Argentina, com uma tiragem diária média de 350 mil exemplares - 720 mil aos domingos. O piquete foi feito por empregados de uma das empresas do Grupo Clarín, que estavam acompanhados por ativistas kirchneristas e sindicalistas ligados a Moyano. O governo rejeita as acusações e atribuiu o fato a um conflito trabalhista.

Roa, contudo, desmentiu a existência de problemas com seus empregados. "Não temos nenhum conflito trabalhista em nenhuma das empresas. O governo é cínico", afirmou. Há dez dias, a Confederação Geral do Trabalho (CGT), liderada por Moyano, havia ameaçado com piquetes os meios que publicassem denúncias contra o sindicalista.

A promotora Marcela Solano pediu à polícia federal argentina explicações sobre o descumprimento da decisão da Justiça que garante a circulação do jornal. Para a senadora da Coalizão Cívica, Maria Eugenia Estensoro, de oposição, o governo está impedindo a liberdade de expressão na Argentina.

"Para nós, o mais grave não foi o bloqueio em si, mas sim o fato de que o governo não tenha atuado para evitá-lo", acusou Roa. O deputado da União Cívica Radical (UCR), Miguel Angel Giubergia, também opositor, apresentou na Câmara um pedido de julgamento político da ministra de Segurança, Nilda Garré, por desobedecer à Justiça. O depoimento dela está marcado para amanhã.

O advogado do Clarín, Maurício de Nuñez, apresentou duas denúncias contra o governo pelo mesmo motivo. Ele pediu que os responsáveis pelo piquete sejam punidos. Para o analista Adrian Ventura, mesmo que o piquete tivesse sido por causa de um problema trabalhista, a Constituição argentina garante a liberdade de expressão.

"Desde 2003, o governo foi tratando de manipular os meios de comunicação e se aproveita da estratégia dos caminhoneiros, porque é funcional", disse. Cristina e o Clarín travam uma queda de braço desde 2008, quando o jornal defendeu a bandeira dos produtores rurais na briga contra a alta dos impostos de importação.

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