Federico Rios/The New York Times
Federico Rios/The New York Times

Governo interino da Bolívia inicia 'cruzada' para denunciar violações de direitos humanos

Crise profunda no país deixou 34 mortos até o momento; Jeanine Áñez responsabiliza Evo Morales

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2019 | 00h13

O governo interino da Bolívia iniciou nesta segunda-feira, 2, uma cruzada para denunciar violações de direitos humanos no país perante a comunidade internacional. 

A presidente interina da Bolívia, Jeanine Áñez, apareceu acompanhada pelo ex-presidente Jorge Quiroga (2001-2002) para anunciar a 'missão especial' confiada a ele, em um momento em que circulam acusações de que o governo viola os direitos humanos. 

"Um punhado de vândalos" tentou nas últimas semanas levar "onze milhões de bolivianos como reféns", disse Jeanine Áñez ao aparecer na capital La Paz com os recém-nomeados para esta missão. Áñez se referiu à violência desencadeada na Bolívia desde 10 de novembro, quando Evo Morales anunciou sua renúncia, forçada pelos militares, que mergulharam o país no caos em meio a um vácuo de poder.

"Eles tentaram cercar as cidades para que não entrassenm em alimentos, nem combustíveis, queimaram casas, atingiram os cidadãos e intimidaram aqueles que pensam de maneira diferente do governo ditatorial do MAS - Movimento ao Socialismo - e tudo isso foi liderado por Evo Morales", disse Áñez.

O governo provisório da Bolívia denunciou Evo Morales à procuradoria, acusando-o de crimes como terrorismo. O governo afirma que ele é responsável por incitar seus seguidores a manter bloqueios na estrada, evitando que alimentos, gás e gasolina chegem às cidades, para encurralar Áñez.

"A comunidade internacional deve conhecer a realidade da barbárie que esses grupos de ativistas violentos queriam provocar", disse a presidente provisória. "Nós bolivianos sabemos o que aconteceu aqui, uma longa noite tirânica de quase catorze anos chegou ao fim", disse Quiroga sobre o tempo no poder de seu adversário.

Sua principal missão será expor os antecedentes derivados dos violentos eventos que abalaram o país não apenas a partir de 10 de novembro, mas a partir do dia seguinte às fracassadas eleições de 20 de outubro, agora anuladas. Quiroga disse que Morales tentou "fazer um golpe ignorando a Constituição que ele próprio nos pediu para votar, porque nessas eleições ele foi proclamado vencedor para um quarto mandato, embora a Carta Magna permita apenas dois, e ele o fez por meio de uma fraude monumental e gigantesca".

O ex-presidente Quiroga espera  'apoio' da comunidade internacional ao processo de transição na Bolívia em direção a novas eleições, previstas no início de 2020, mas ainda sem datas definidas. Por isso, sua primeira mensagem foi diretamente para um país, o México, que ele chamou de 'amigo'.

"Assimilar e proteger a fraude é contraditório com a posição do governo há muito tempo", disse ele ao presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, que recebe Morales. Ele acrescentou que "assimilar aqueles que promoveram e defenderam o tráfico de drogas é tremendamente prejudicial, assimilar e proteger aqueles que pediram para gerar violência no país também é prejudicial".

Crise. A única instituição na Bolívia que divulga publicamente uma lista de vítimas desde 20 de outubro é a Ouvidoria, que apresenta uma trágica relação de pelo menos 34 mortos e 832 feridos. Muitas das vítimas fatais foram mortas a tiros durante operações militares e policiais após o dia 10 de novembro.

Na semana passada, uma missão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) esteve na Bolívia, devido à sua preocupação com a violência contra civis, com um papel que considera "excessivo" para a aplicação da lei. Os delegados da CIDH se reuniram com o governo interino e com os setores que enfrentam a denúncia dos mortos em El Alto e Sacaba, cidades onde dez civis morrem diariamente de tiros em 15 e 19 de novembro, respectivamente. /EFE

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