Governo iraniano ameaça cancelar eleições

O gabinete reformista do Irã alertou nesta segunda-feira (26) que poderia cancelar as eleições legislativas previstas para fevereiro depois de poderosos clérigos ultraconservadores terem vetado sucessivas tentativas de reverter a desqualificação em massa de candidatos progressistas. "O governo continuará com suas atividades para ajudar a criar as condições para a realização de eleições justas, livres e competitivas", informou o gabinete de governo iraniano por meio de um comunicado. "A existência de competição é uma condição essencial para a realização de eleições." A pior crise política do Irã nos últimos anos teve início quando o Conselho dos Guardiães da Revolução - um organismo poderoso responsável por supervisionar as eleições cujos membros não são eleitos - desqualificou mais de um terço dos 8.200 candidatos registrados para o pleito de 20 de fevereiro, inclusive mais de 80 reformistas que atualmente exercem mandato no Parlamento. Os reformistas denunciaram as desqualificações como uma tentativa dos conservadores de influenciar o resultado do pleito a seu favor por negar aos reformistas o direito de concorrer. O alerta do governo de que cancelará as eleições parece ser um dos últimos recursos do reformistas depois de seguidas tentativas de reverter as desqualificações. Para que as eleições sejam canceladas, o governo deve renunciar ou enviar ao Parlamento um projeto de lei pedindo o cancelamento do pleito - medida que provavelmente seria vetada pelo Conselho dos Guardiães. O Ministério do Interior, dominado por reformistas, tem a função de organizar os procedimentos eleitorais. Nos últimos dias, funcionários da pasta vêm dizendo que não organizarão "eleições simuladas". O líder supremo iraniano aiatolá Ali Khamenei, que tem a última palavra sobre todos os assuntos iranianos, precisou intervir no passado para solucionar impasses entre os reformistas e os ultraconservadores. Enquanto Khamenei instruiu o Conselho dos Guardiães a reconsiderar as desqualificações, ele poderia ainda derrubá-las. Depois da intervenção, o conselho habilitou alguns candidatos, mas o número foi insuficiente para satisfazer aos reformistas, que protestaram pacificamente contra as desqualificações. Hoje, cerca de 2.000 professores da Universidade de Teerã manifestaram apoio aos reformistas. Eles fizeram jejum durante todo o dia para protestar contra a desqualificação dos candidatos. Ontem, o Conselho dos Guardiães vetou a mais recente iniciativa dos reformistas para reverter a decisão. O Parlamento havia aprovado mais cedo uma emenda à lei eleitoral que obrigaria o conselho a reabilitar todos os candidatos qualificados a não ser que houvesse provas concretas de que eles não estão aptos para concorrer.

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