Governo israelense ataca o Irã, de novo

Se Israel quisesse mesmo impedir a bomba nuclear iraniana, teria tomado uma série de medidas diferentes

Jonathan Tepperman / The New York Times,

30 de julho de 2013 | 02h10

No início do mês, o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, foi à televisão americana para lembrar ao mundo (como se alguém houvesse esquecido) de que a ameaça do Irã continua muito viva. Falando ao Face the Nation, na CBS, Netanyahu advertiu que a república islâmica está novamente se aproximando da linha vermelha nuclear e insinuou que, se os EUA não agissem logo, ele o faria.

Preparem-se para ouvir mais sobre isso nas próximas semanas. O aparecimento de Netanyahu na TV foi, conforme se noticiou, apenas o sinal de partida de uma nova campanha para jogar os holofotes de novo sobre o Irã. No entanto, não esperem que Washington ou a comunidade internacional se lancem à ação.

Netanyahu não tem - e não deve ter - o tipo de resposta que anseia. Tanto seu linguajar como o comportamento de Israel dificultam, cada vez mais, levarmos suas advertências a sério. As ameaças do governo de Israel sobre o Irã se tornaram corriqueiras.

Netanyahu já fez exercício semelhante no meio do ano passado. E também no meio do ano anterior. Aliás, líderes israelenses já vêm emitindo esses alarmes há quase uma década. Essa repetição não seria um problema se a situação para a qual elas estivessem advertindo não tivesse mudado tanto.

Em 2004, quando o então primeiro-ministro Ariel Sharon levantou a questão do programa nuclear iraniano, ele disse que o ponto limite chegaria quando o Irã estivesse perto de adquirir a capacidade técnica de enriquecer urânio.

Meses depois, contudo, o ministro da Defesa de Israel, Shaul Mofaz, disse que não, que o verdadeiro perigo viria quando o Irã começasse a enriquecer combustível em seu próprio território. Depois, em 2006, o primeiro-ministro Ehud Olmert garantiu que o momento fatal viria quando os iranianos começassem a operar um determinado número de unidades de enriquecimento de urânio.

No ano passado, Ehud Barak, ministro da Defesa de Netanyahu na época, disse que a verdadeira linha vermelha seria cruzada quando o Irã entrasse na "zona de imunidade" - o ponto em que o programa nuclear estaria tão avançado ou bem defendido que não poderia ser incapacitado por um ataque.

O confuso em toda essa ladainha é que o Irã cruzou todas essas linhas vermelhas, mas o suposto desastre ainda não se concretizou. De modo que Netanyahu, agora, está com o problema da ovelha que grita "lobo". No entanto, há uma falha ainda mais grave em seu caso contra o Irã: a incoerência intelectual.

Netanyahu insiste que a república islâmica deve ser contida antes que ela construa uma bomba nuclear porque não se pode confiar que o país seja capaz de conter o seu uso. O Irã, em outras palavras, não é passível de dissuasão.

Preocupação. No entanto, para isso ser verdade, os líderes do país teriam de ser mais perversos e menos racionais do que Stalin e Mao Tsé-tung, cujos crimes foram infinitamente maiores, mas contra os quais a dissuasão funcionou muito bem. Essa afirmação é dura demais para se aceitar.

E fica ainda mais dura quando nos lembramos de que o Irã, aparentemente, desacelerou o enriquecimento de urânio no ano passado. Teerã o fez em resposta a ameaças e sanções internacionais concertadas - a definição de um comportamento racional.

Sejamos claros: não estou tentando dizer que Israel não tem razão de se preocupar com o Irã. Dado o tamanho e a localização de Israel, a preocupação atual do governo de Barack Obama com Egito e Síria e a aparente disposição de Washington de engajar o novo presidente do Irã em outra rodada de negociações, a ansiedade de Netanyahu é compreensível, embora excessiva.

O que não é compreensível é a maneira como ele está lidando com isso. Se o seu governo estivesse realmente determinado a interromper o programa nuclear do Irã, ele estaria agindo de maneira muito diferente em alguns aspectos fundamentais.

Primeiro, para construir um amplo apoio internacional à ação, ele estaria fazendo de tudo - tudo mesmo - a seu alcance para fazer a paz com a Autoridade Palestina e, com isso, remover o maior empecilho em suas relações com a Europa e o mundo árabe. No entanto, Netanyahu não está fazendo realmente nada a esse respeito. Não se deixem enganar pelo recente anúncio americano de que as conversações de paz serão reiniciadas em breve.

O fato de que o lado israelense será conduzido por Tzipi Livni - uma parceira da coalizão de quem Netanyahu não gosta e desconfia - e o fato de que, mesmo antes de as conversações serem anunciadas, outros membros de seu gabinete declararam anonimamente que elas seriam pouco mais do que uma farsa -, mostram com que seriedade Netanyahu as está considerando as negociações de paz.

Diplomacia. Segundo, Israel realmente quisesse impedir o Irã de conseguir uma bomba, ele teria colocado a sua própria na mesa. Isso pode parecer bizarro, mas considerem o fato de a eventual oferta de criar uma zona de exclusão regional ganhar Israel. Netanyahu poderia insistir em mecanismos de verificação mais intrusivos que se possa imaginar - inspetores israelenses nas instalações de Fordo ou Natanz, por exemplo.

O Irã rejeitaria, mas isso não teria importância. Jerusalém teria posto Teerã na defensiva e conquistado um pouco do apoio internacional de que tão desesperadamente necessita. Entretanto, em vez de dar esses passos ousados, Netanyahu recorreu a uma velha tática e está chamando a atenção nos EUA. O que aponta para uma conclusão cínica, mas inevitável: ele realmente quer que o restante do mundo resolva o seu problema iraniano.

Não que Netanyahu não preferira que os mulás parem de construir a bomba. Claro que ele preferiria. Ele apenas não está disposto a pagar um alto preço - como oferecer concessões dolorosas - para que isso aconteça. No entanto, se ele não está disposto, por que alguém de fora estaria? / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* JONATHAN TEPPERMAN É COLUNISTA

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