Governo israelense se desfaz; Sharon não fala em eleições

A coalizão de amplas bases do primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, desmoronou nesta quarta-feira. A renúncia de ministros do Partido Trabalhista pôs fim a uma parceria que por 20 meses uniu ásperos rivais políticos numa frente comum contra o levante palestino. Sharon garantiu no Parlamento que continuará a liderar o país, sugerindo que tentará governar com uma estreita coalizão de partidos religiosos e de extrema direita. A alternativa seria convocar eleições antecipadas.Mais cedo, em três horas de negociações numa sala do Parlamento, Sharon rejeitou a exigência dos trabalhistas de cortar US$ 145 milhões que seriam destinados a assentamentos judaicos em territórios palestinos. A verba está prevista no orçamento nacional de US$ 57 bilhões, para 2003.Pela lei israelense, as renúncias só entrarão em vigor em 48 horas, dando espaço para manobras de última hora - mas políticos dos dois lados assseguraram que o "governo de unidade" de Sharon chegou ao fim."Temos de combater o terrorismo, mas estamos convictos de que esgotamos todas as nossas possibilidades no campo militar, de modo que o governo deve apresentar uma opção política", afirmou o líder trabalhista Binyamin Ben-Eliezer, referindo-se às conversações de paz com os palestinos. "O primeiro-ministro é incapaz de apresentar um horizonte diplomático." Ben-Elizer é o ministro da Defesa do governo Sharon.Críticos acusaram Ben-Eliezer de fazer política partidária, afirmando que pesquisas mostram que ele está atrás de dois desafiantes mais pacifistas na disputa pela liderança do partido, que ocorre em 19 de novembro. Ao deixar o governo por uma disputa sobre assentamentos, ele poderia ter suas chances aumentadas. "É o máximo da irresponsabilidade", acusou o ministro da Educação Limor Livnat, do Partido Likud, de Sharon. O orçamento foi colocado em votação no Parlamento após a renúncia dos ministros trabalhistas e foi aprovado com o apoio de partidos fora da coalizão - como era esperado - por 67 votos a 45. O orçamento ainda tem de ser aprovado em outras duas votações.Políticos envolvidos nas últimas conversações disseram que o ministro do Exterior, Shimon Peres, que liderou o Partido Trabalhista por grande parte das últimas duas décadas e tem sido um partidário-chave do governo de unidade, tentou convencer Ben-Eliezer a recuar. No fim, Peres renunciou junto com Ben-Eliezer e outros quatro ministros trabalhistas.Se as renúncias forem confirmadas, Sharon enfrentará dificuldades para se manter no poder com o apoio de diversos partidos de extrema direita e religiosos - o que significaria instabilidade política e constante pressão por políticas ainda mais duras, e internacionalmente impopulares, contra os palestinos.Assessores de Sharon têm dito ser mais provável que ele convoque eleições para dentro de 90 dias, mas o próprio premier sugeriu o contrário num discurso no Parlamento. "Vamos cotinuar a liderar o país de uma forma responsável e equilibrada", afirmou.Apesar de pesquisas mostrarem que o bloco de partidos liderado pelo Likud iria provavelmente conquistar maioria no Parlamento de 120 cadeiras, não existe garantia de que Sharon conseguirá derrotar um desafio à liderança do Likud, apresentada pelo ex-primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.De qualquer forma, o desdobramento é um mau sinal para os esforços dos Estados Unidos para conseguir apoio israelense a um plano de paz de três estágios, que antevê um Estado palestino provisório em 2003.Uma eleição significaria um atraso de meses, e os parceiros da extrema direita de Sharon em uma estreita coalizão provavelmente resistiriam a partes da proposta, como o congelamento de assentamentos judaicos e retirada de tropas de territórios palestinos.A reação palestina foi contida. O negociador palestino Saeb Erekat considerou a crise da coalizão "um assunto interno israelense". Mas Erekat também advertiu que "se houver uma nova coalizão entre o Likud e a ala direita em Israel, ela ocorrerá às custas do povo palestino e contra o processo de paz".Os trabalhistas uniram forças com o linha dura Sharon depois de ele ter esmagado o candidato deles nas eleições para primeiro-ministro em fevereiro de 2001, meses depois do colapso de conversações de paz e do início da intifada palestina.Mas desde o início acreditava-se que os trabalhistas abandonariam a coalizão antes das próximas eleições - marcadas para novembro de 2003 - a fim de se posicionar como uma alternativa mais moderada a Sharon.Sharon e Ben-Eliezer lideraram em conjunto a luta contra militantes palestinos que promovem uma violenta campanha contra Israel - campanha esta que escalou ao ponto de tropas israelenses reocuparem a maioria das cidades palestinas a que governos anteriores haviam dado autonomia.Mas eleitores trabalhistas têm se mostrado cada vez mais insatisfeitos com as repetidas rejeições, por parte de Sharon, de esforços internacionais em busca de uma saída política para o confronto e por sua determinação em esmagar a revolta palestina antes que possa ser retomado o processo de paz.As tensões aumentaram nas últimas semanas, com a decisão de Ben-Eliezer de desmantelar dezenas de postos avançados de assentamentos judaicos estabelecidos na Cisjordânia em anos recentes - em alguns casos, abrigando colonos em número menor do que os soldados destacados para protegê-los.A situação chegou ao ponto crítico com a objeção dos trabalhistas ao que consideram ser o excesso de verbas destinadas aos assentamentos.Durante a reunião de três horas entre Sharon, Ben-Eliezer e Peres, gritos foram ouvidos e num dado momento Ben-Eliezer abandonou o encontro irritado, para retornar posteriormente. Ao anoitecer, os negociadores declararam as conversações encerradas.Governos de coalizão em Israel são cronicamente instáveis. Nenhum deles completa seu mandato desde a década de 80. O país já teve cinco primeiros-ministros nos últimos sete anos.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.