Sameer Al-Doumy / AFP
Sameer Al-Doumy / AFP

Governo italiano apoia ‘coletes amarelos’ e abre crise com França

Luigi Di Maio e Matteo Salvini, os dois líderes populistas mais importantes da Itália, pedem que movimento contra presidente francês, Emmanuel Macron, continue protestando nas ruas; Paris rejeita ingerência do país vizinho

Redação, O Estado de S.Paulo

07 Janeiro 2019 | 20h34

ROMA - Os dois principais líderes populistas italianos declararam nesta segunda-feira, 7, “apoio veemente” ao movimento dos “coletes amarelos”, que há quase dois meses protesta na França. As declarações incomuns – uma clara interferência em um assunto interno de um país vizinho – abriram uma crise diplomática com o governo francês a poucos meses das eleições para o Parlamento Europeu.

O primeiro a manifestar apoio aos coletes amarelos foi o vice-primeiro-ministro Luigi Di Maio, líder do Movimento Cinco Estrelas (M5S), partido antissistema vitorioso nas últimas eleições. Di Maio pediu que os manifestantes franceses “não desistam e continuem a luta”. “Coletes amarelos, não cedam!”, escreveu o italiano no blog do M5S.

“Da Itália seguimos sua batalha desde o dia em que vocês apareceram pela primeira vez, colorindo de amarelo as ruas de Paris e de outras cidades francesas. Sabemos o que anima o seu espírito e por que vocês decidiram tomar as ruas. Na França, como na Itália, a política tornou-se surda às necessidades dos cidadãos que foram impedidos de participar das decisões mais importantes que afetam o povo”, escreveu Di Maio.

A manifestação mais contundente de apoio foi do outro vice-premiê italiano, Matteo Salvini, líder da Liga (partido de extrema direita). “Apoio os cidadãos honestos que protestam contra um presidente que governa contra seu povo”, afirmou Salvini. 

“Como outros governos, o da França pensa sobretudo em representar os interesses das elites, daqueles que vivem dos privilégios. O governo de (Emmanuel) Macron não está á altura das expectativas e algumas políticas implementadas são realmente perigosas, não só para os franceses, mas também para a Europa.”

Os coletes amarelos — assim batizados por vestirem os trajes fluorescentes dos kits de emergência obrigatórios para motoristas na França — vêm bloqueando estradas em todo o país desde novembro, quando tiveram início as manifestações contra o aumento de um imposto sobre os combustíveis. Ao longo do tempo, porém, as mobilizações ganharam adesões de diversos setores da sociedade e se transformaram em uma reação mais ampla contra as políticas econômicas de Macron.

Já o M5S ganhou popularidade na esteira da crise econômica pela qual passou a Itália na última década, com alto índice de desemprego e aumento do fluxo migratório. As suas promessas de combater a corrupção, ouvir as demandas das classes trabalhadoras e renovar a classe política impulsionaram a ascensão do partido, que superou nas urnas legendas tradicionais de centro-esquerda e centro-direita.

“O governo de Macron não está à altura das expectativas, e algumas políticas até prejudicam não apenas os cidadãos franceses, mas também a Europa. Na questão da imigração, que é também a causa da política estrangeira conduzida particularmente no Norte da África, que levou à desestabilização dessa região. Como outros governos europeus, os franceses pensam em proteger os interesses da elite, daqueles que têm privilégios, mas não as pessoas”, disse Di Maio. 

As declarações de Salvini e Di Maio irritaram o governo francês e criaram uma querela diplomática. Nesta segunda, 7, a ministra de Assuntos Europeus de Macron, Nathalie Loiseau, respondeu pelo Twitter: “A França tem cuidado para não dar lições à Itália. Salvini e Di Maio deveriam aprender a limpar a casa antes de falar.”

O primeiro-ministro francês, Édouard Philippe, também reagiu irritado os comentários em uma entrevista na TV. “Eles deveriam cuidar da política interna italiana antes de falar sobre as questões francesas”, afirmou.

Líderes políticos de oposição na Itália criticaram as declarações de Salvini e Di Maio. Segundo opositores, os comentários seriam uma tentativa de mobilizar a direita e os insatisfeitos com a elite política europeia para a votação para o Parlamento Europeu, que acontece entre os dias 23 e 26 de maio.

“As loucuras que Di Maio falou violam o direito internacional, a Carta das Nações Unidas e ameaçam as exportações italianas para a França”, afirmou Deborah Bergamini, vice-presidente do partido opositor Forza Italia. “É uma manobra eleitoreira para estimular as divisões e ganhar votos para as eleições europeia.” / AFP, EFE e REUTERS

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