EFE/EPA/RICCARDO ANTIMIANI
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Governo italiano deve escolher entre salvar a saúde ou a economia, diz analista

Para o sociólogo Domenico De Masi, quanto mais o Estado optar por uma coisa, prejudicará a outra

Janaina Cesar ESPECIAL PARA O ESTADO / VENEZA, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2020 | 05h00

Na semana passada, o conselho de ministros do governo italiano aprovou o decreto “Cura Itália”. Feito para salvar a economia e tirar os italianos da beira da falência, o texto destina 25 bilhõ es de euros (R$ 136 bilhões) para enfrentar a crise provocada pelo coronavírus. Cerca de 3,5 bilhões de euros vão para o sistema de saúde e 10 bilhões de euros para o mercado de trabalho. O pacote é consistente e lança medidas para impedir demissões e conceder benefícios para as empresas enfrentarem a crise. Prevê até mesmo a cobertura de todos os trabalhadores informais e sazonais com um cheque de 600 euros (R$ 3.270) em março.

Para o sociólogo Domenico De Masi, a Itália não é a China. “Somos uma democracia e, como tal, estamos diante de duas questões: é melhor salvar a saúde ou a economia ou é melhor salvar a saúde ou a democracia? São escolhas que o governo tem de fazer.” Segundo ele, quanto mais o Estado tentar salvar uma opção, mais prejudicará a outra. “Estamos diante de uma pandemia absurda. Nesse caso, até onde você pode salvar a saúde salvando a democracia – e vice-versa?”, questiona De Masi, para quem “a solução pode fazer com que a Itália se torne o modelo para o mundo.”

O sociólogo argumenta que hoje, mais do que nunca, os cidadãos estão se sobressaindo aos partidos políticos. “(O premiê Giuseppe) Conte, com seu humanismo e equilíbrio, está se destacando na política. Ele, que não era um homem com experiência nesse setor, está mostrando uma capacidade incrível de lidar com os problemas dessa pandemia”, disse De Masi. A última pesquisa realizada pela Demos & Pi para o jornal La Repubblica traduz em dados o que De Masi argumenta.

As medidas emergenciais adotadas por Conte e pelo governo aumentaram sua popularidade. O nível de confiança no Executivo teve um crescimento de quase 30%, passando dos 44% registrados em fevereiro, aos atuais 71%. Em 30 dias, a popularidade de Conte saltou de 52% para 71%. 

Os números registram ainda um cenário político fragmentado durante a pandemia. A Liga, partido do ex-vice-primeiro-ministro Matteo Salvini, mantém a primeira posição das intenções de voto, com 28,8%. O Partido Democrático está em segundo lugar, com 21%, e o Movimento 5 Estrelas, tem 14,6%.

Os efeitos colaterais da disseminação do coronavírus reflete também de outra maneira na política. Após a contaminação de alguns deputados, cogita-se o fechamento do Parlamento, como defende Edmondo Cirielli, do Partido Fratelli d’Italia, de extrema direita. 

Salvini, que até hoje compareceu a apenas 10% das sessões parlamentares, usou as redes sociais para rejeitar a ideia e pedir a todos que compareçam para votar melhorias no decreto “Cura Itália”. 

Segundo Gaetano Azzariti, constitucionalista e professor de direito da Universidade La Sapienza, é inaceitável um Parlamento suspenso. “O Parlamento é um órgão igualmente indispensável para a nossa vida democrática e, portanto, não é possível o fechamento. É necessário garantir a continuidade das atividades parlamentares, encontrar uma maneira de fazer com que todos os nossos representantes votem”, afirmou Azzariti em entrevista ao jornal Il Fatto Quotidiano.

A Câmara dos Deputados propôs que os trabalhos sejam feitos de casa, por meio de dispositivos eletrônicos. “Antes do coronavírus, éramos cerca de 500 mil italianos que trabalhávamos em home office. Agora, somos 10 milhões. Aconteceu uma revolução e estamos em fase de experimentação de massa”, disse De Masi. 

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