Marcos Brindicci/Reuters
Marcos Brindicci/Reuters

Governo Kirchner não tem senso de humor, diz cartunista

Para Sábat, pressionado também durante a ditadura, Cristina e os poderosos que a cercam não estão acostumados às críticas

Entrevista com

ARIEL PALACIOS , CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES - O Estado de S.Paulo, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2011 | 03h05

BUENOS AIRES - Em março de 2008, uma caricatura de Cristina Kirchner feita pelo cartunista Hermenegildo Sábat desatou a ira da presidente. A charge, publicada no jornal Clarín, a mostrava com um "x" sobre os lábios carregados de botox enquanto a cabeça de seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner (ainda vivo na época), aparecia como um apêndice.

 

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Cristina considerou a charge uma "censura" ao que dizia e, diante de 100 mil militantes acotovelados na Praça de Maio, chamou Sábat de "quase mafioso".

 

Após afirmar que estava em andamento um "golpe de Estado" organizado pelas associações ruralistas e a mídia, Cristina declarou: "Sou vítima de um fuzilamento midiático". A publicação da charge marcou uma intensificação do confronto do governo com a imprensa não alinhada. A seguir, trechos da entrevista de Sábat, um admirador do Brasil, ao Estado.

Estado: Alguma vez em sua carreira foi pressionado por charges que fez de presidentes?

Hermenegildo Sábat: Durante a ditadura do general Rafael Videla. E agora, com a charge de Cristina.

Estado: Os peronistas, e mais especificamente sua vertente kirchnerista, possuem menos senso de humor que outros grupos políticos?

Hermenegildo Sábat: Sem dúvida. Fiz caricaturas ácidas sobre o ex-presidente Carlos Menem e ele nunca reclamou. Acho que no caso dos Kirchners, que vieram do interior (de Rio Gallegos, capital da Província de Santa Cruz, cidade que só tem 74 mil habitantes), não estavam acostumados a isso. Deviam estar acostumados a esse tipo de jornal provinciano que só faziam apologias de suas obras...

Estado: Foi ameaçado por causa da charge de Cristina?

Hermenegildo Sábat: Não recebi ameaças nem fui agredido. Mas nunca se sabe. Sinto um clima de solidão, criado por esse tipo de ataque verbal. Temos que ver o que acontecerá daqui para a frente, com outros quatro anos de governo de Cristina Kirchner.

Estado: Acredita que o cenário com a imprensa ficará mais tenso?

Hermenegildo Sábat: Temos que ver como esse pessoal reage com mais poder. Eles não gostam de críticas.

Estado:  Quais são as características mais caricaturáveis de Cristina?

Hermenegildo Sábat: O cabelo. Cristina é uma mulher que não deve sair de casa enquanto o cabeleireiro não tenha deixado sua cabeleira em ordem, além de estar sempre muito maquiada. É preciso destacar que o modelo de mulher aqui na Argentina é o de Eva Perón, que morreu aos 33 anos, depois de uma breve, mas intensa, carreira política de cinco anos.

 

Mas esta senhora (Cristina) tem 57 anos e o que ela pode fazer é sustentar uma imagem exterior. Espero, como dizem por aí, que alguém a ilumine. Mas tenho minhas dúvidas. Olhe esta frase aqui (mostra um papel colado na parede de seu escritório): "Uma pessoa inteligente recupera-se rapidamente de uma derrota. Mas uma pessoa medíocre jamais recupera-se de uma vitória". É boa, não?

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