Governo libanês e Hezbollah chegam a um beco sem saída

Para premiê, resta manter a queda de braço com os xiitas

Thanassis Cambanis, The New York Times, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2011 | 00h00

O colapso do governo libanês sinalizou o estágio final da ascensão do Hezbollah da condição de grupo de resistência ao poder governante. Apesar de a organização permanecer à frente da oposição, ninguém deve se enganar. O Partido de Deus consolidou seu controle no Líbano e não se deterá diante de nada - incluindo uma guerra civil - para proteger sua posição.

A crise foi precipitada pela oposição do Hezbollah a um tribunal bancado pela ONU para investigar o assassinato, em 2005, do então primeiro-ministro Rafik Hariri. Alguns analistas especulam que o governo libanês atual - chefiado pelo premiê Saad Hariri, filho de Rafik - poderia estabilizar o país com a rejeição da legitimidade do tribunal.

Hariri não tem outra escolha senão permanecer firme na queda de braço com o Hezbollah. Mesmo que a rejeição do relatório contivesse o grupo xiita no curto prazo, ele acabaria sem nenhuma autoridade. Hariri terá de insistir na responsabilização dos assassinos de seu pai, mesmo que perca seu cargo. Sua coalizão só continuará sendo uma alternativa viável ao Hezbollah se ela se aferrar aos valores pluralistas com base na lei, que a distinguem de seus inimigos teocráticos.

As mazelas do Líbano espelham as de boa parte do mundo árabe, no qual a estabilidade é, muitas vezes, conquistada em detrimento da justiça, e ressaltam a limitada influência dos EUA. Washington deu forte apoio retórico à coalizão de Hariri, mas foi incapaz de impedir o Hezbollah de ganhar as ruas de Beirute e conseguir, pela força, o poder de veto sobre o governo - o grupo tem 10 das 30 cadeiras ministeriais do gabinete, o que lhe dá o poder de veto.

Foi o exercício desse poder, com a renúncia de seus ministros junto com um independente, que derrubou o governo no momento em que Hariri se reunia com o presidente Barack Obama em Washington. Para um observador externo, a crise pode parecer confusa. Mais de cinco anos depois do assassinato de Rafik, na explosão de um carro-bomba, o tribunal internacional ainda não conseguiu indiciar suspeitos.

O Hezbollah, rearmado e renascido após a guerra com Israel, em 2006, conquistou uma série de vitórias políticas. A influência de seus patrocinadores, Síria e Irã, cresceu. O diálogo entre Síria e Arábia Saudita, que poderia ter estabilizado o governo, foi desmobilizado.

Por que, então, o Hezbollah mudaria agora sua política? O grupo não pode aceitar o golpe que ocorreria caso fosse envolvido no assassínio de Hariri. Seu poder depende do apoio incondicional de seu quase 1 milhão de libaneses. Seu eleitorado é o único público que importa.

Sem saída. Esses partidários serão fortemente pressionados a compreender e perdoar o Hezbollah se ficar provado que o grupo matou um líder que era amado por muçulmanos sunitas e respeitado por cristãos, drusos e muitos xiitas, que são a base do Hezbollah. Essa é a razão pela qual o grupo nega qualquer papel no assassinato, apesar de ter assumido descaradamente a responsabilidade por medidas desestabilizadoras, como ter iniciado a guerra de 2006 com Israel e ter empurrado o Líbano para a beira da guerra civil em 2008.

No entanto, as desculpas estão ficando esfarrapadas. Evidências vazadas com base em grampos telefônicos colocaram uma equipe do Hezbollah na cena do assassinato. Líderes da organização insistem que seus homens só estavam tentando proteger Hariri e é Israel que está por trás do crime.

Se ficar provado que tomou parte na morte do premiê e em outras campanhas de assassinatos de figuras libanesas moderadas, o Hezbollah parecerá, para muitos cidadãos, apenas mais um movimento militante embriagado pelo poder.

Que opções teria o jovem Hariri? Ele lidera uma coalizão internamente dividida e em processo de encolhimento, que em 2009 conquistou a maioria das cadeiras no Parlamento, mas teve menos votos do que o Hezbollah. A melhor estratégia é simples respaldar o tribunal e deixar que ele divulgue todas as suas evidências.

Caberá aos promotores internacionais fornecer provas contundentes de que o Hezbollah matou Hariri. Por enquanto, o atual premiê precisa dizer que confia na lisura do processo. Se o Hezbollah for inocente, será absolvido. Se for culpado, por que deveria escapar?

As chances de essa estratégia dar certo são pequenas: no fim, o Hezbollah, provavelmente, se sagrará vencedor porque está disposto a sacrificar o Estado libanês para manter sua posição no Oriente Médio e sua guerra perpétua contra Israel. No entanto, o isolado premiê libanês não tem outra escolha se não apostar na tentativa arriscada de uma solução justa. Caso contrário, se tornará um gerente da impunidade do Hezbollah. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK É MEMBRO DO CONSELHO AMERICANO DE POLÍTICA EXTERNA

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