Manaure Quintero/Reuters
Manaure Quintero/Reuters

Governo Maduro culpa refugiados que retornam ao país por explosão de casos de covid-19

Muitos chegam da Colômbia e entram no país por pontos de travessia ilegais sem fazer testes para o coronavírus; Maduro afirma que eles estão provocando um aumento perigoso de casos

Ana Vanessa Herrero, Anthony Faiola e Mariana Zuñiga, The Washington Post

21 de julho de 2020 | 03h00

CARACAS, VENEZUELA – A ameaça “biológica” se concentrou na fronteira a oeste do país, afirmou o governo socialista da Venezuela. E assim, o presidente Nicolás Maduro, atento a uma possível invasão, está enviando soldados armados para a fronteira.

O líder autoritário de 57 anos não está preocupado com o Exército colombiano, mas visa seus próprios cidadãos – migrantes venezuelanos que vêm de fora porque perderam o emprego por causa da pandemia e agora retornam ao seu país.

Muitos chegam da Colômbia e entram no país por pontos de travessia ilegais sem fazer testes para o coronavírus. Maduro afirma que eles estão provocando um aumento perigoso de casos nesta nação excepcionalmente vulnerável.

“Vocês que cruzam a fronteira ilegalmente ao retornarem ao seu país estão matando nossas famílias. O vírus colombiano se espalha furtivamente por toda parte e está matando pessoas boas”, disse Maduro num discurso transmitido pela TV.

A oposição venezuelana apoiada pelos Estados Unidos afirma que o governo de Maduro vem tornando pior a situação ao confinar os que chegam em centros de quarentena mal equipados e onde, segundo dados da oposição, o vírus vem se propaga.

As partes concordam em pelo menos um ponto. O país sul-americano cujo sistema de saúde em frangalhos está entre os menos preparados no mundo para enfrentar a pandemia, agora vem observando uma eclosão de casos com os hospitais sobrecarregados.

Nos últimos anos, mais de cinco milhões de venezuelanos fugiram da fome, da pobreza e da repressão do governo em seu país e muitos se estabeleceram em outros países latino-americanos onde os mais pobres levam uma vida precária trabalhando como empregados domésticos e vendedores ambulantes.

Mas com o coronavírus avançando rapidamente por toda a região e os países, do México à Argentina, estão em lockdown, muitos desses refugiados se viram nas ruas em Quito, Lima e Bogotá, sem emprego e famintos, e voltam para casa. Nas últimas semanas, 60 mil retornaram causando engarrafamentos nos pontos de fronteira com a Colômbia. Muitos atravessam ilegalmente, por áreas sem fiscalização ao longo da fronteira.

Mas aguardando aqueles que voltam estão os soldados de Maduro que submetem as pessoas a uma quarentena obrigatória em estados fronteiriços como Zulia, Táchira e Apure. Os migrantes ficam detidos nesses centros sem máscaras ou distanciamento social.

A manicure Mayra Jiménez, de 37 anos, perdeu seu emprego na Colômbia quando o país implementou o lockdown. Na fronteira, ela se submeteu a dois testes rápidos, um pelos colombianos e outro pelos venezuelanos. Ambos deram negativo.

Cinco dias depois de retornar à casa, porém, ela testou positivo. Foi então enviada para um hospital público no estado de Apure. O hospital não possuía aparelho de raio-X e ela foi transferida para o mais próximo, sete horas longe dali.

“Pedi a Deus para cuidar da minha família”, disse ela, que já está recuperada. “Prometi a Deus que nunca mais deixaria meu país. Ele me salvou”.

Os hospitais nesses estados fronteiriços já em dificuldades há anos, com a quebra de equipamentos e uma escassez crônica de remédios e suprimentos médicos não conseguem atender à demanda que cresce.

A Venezuela já reportou mais de 10 mil casos de coronavírus e 96 mortes. Mas com a testagem limitada e o governo no controle dos dados, acredita-se que esses números são subestimados.

Funcionários do hospital universitário de Maracaibo, o hospital, designado pelo governo como a instituição principal da cidade para o atendimento de casos de coronavírus e que vinha atendendo média 500 pacientes com sintomas,. dobrou esse número no mês passado. Todos os oito leitos da unidade de terapia intensiva e os 10 ventiladores estavam em uso, com uma lista de espera perigosamente longa de outras pessoas que necessitavam desse atendimento.

Uma médica se referiu a uma mortalidade alarmante.

“O número de mortos vem aumentando. Há dias em que perdemos até 10 pacientes”.

Segundo funcionários, muitas mortes não foram ainda incluídas na contagem oficial porque os testes são enviados para serem processados em Caracas e demora até um mês para se ter o resultado.

Um médico residente disse que as condições no hospital são tão ruins que muitas pessoas infectadas renunciam ao atendimento.

“Não há ar-condicionado e estamos enfrentando um calor de 37 graus”, disse ela. “É sufocante”.

Também não há água corrente de maneira que enfermeiras e médicos lavam as mãos em bacias. O hospital é um dos poucos no estado de Zulia que recentemente recebeu máscaras faciais, mas elas são reservadas para o pessoal da área médica. A falta de equipamento de proteção pessoal para empregados como faxineiros e porteiros significa que as alas de enfermaria ficam dias sem limpeza.

A associação de médicos local diz que 44 médicos e enfermeiros foram infectados pelo coronavírus. Nove morreram segundo a organização sem fins lucrativos Médicos Unidos da Venezuela. Uma dezena está em tratamento intensivo.

Funcionários dizem que a direção do hospital, pró-governo, ameaçou-os de processo criminal se não se apresentarem no trabalho. Com médicos e enfermeiros adoecendo ou morrendo a situação que já era grave só piorou.

Uma enfermeira foi testada positiva para o coronavírus e escoltada para um centro de quarentena por soldados armados.

A Venezuela foi um dos primeiros países na América do Sul a impor um lockdown rigoroso. A medida, juntamente, com o isolamento relativo do país mesmo antes da pandemia, parece ter mantido um número baixo de infecções no início. Mas os casos dispararam desde o final de maio, segundo uma contagem oficial, com os números mais altos em estados que fazem fronteira com a Colômbia e o Brasil.

Esses dados sugerem que 70% das novas infecções são de transmissão comunitária. Mas, segundo médicos, a alta concentração de infectados perto da fronteira colombiana indica que há uma relação com as travessias nas fronteiras. O governo Maduro acusa abertamente as pessoas que voltam para o país e os contrabandistas que as auxiliam, que evitam entrar legalmente no país e se submeter aos testes que ali são realizados.

“Qualquer pessoa que violar o sistema de imigração e entrar no país (ilegalmente) será considerada uma arma biológica”, afirmou Lisandro Cabello, membro do partido de Maduro em Zulia. Na terça-feira, Maduro anunciou um endereço do Gmail para os venezuelanos denunciarem concidadãos que atravessam a fronteira ilegalmente. E atacou os procedimentos negligentes dos colombianos e o frágil controle da fronteira, acusação rejeitada pelas autoridades da Colômbia.

“O que é realmente triste é que mais de cinco milhões de venezuelanos deixaram o seu país e agora tentam estigmatizar alguns milhares que tentam retornar à sua terra”, disse Felipe Muñoz, assessor do presidente colombiano Iván Duque.

De acordo com alguns médicos aliados à oposição venezuelana, os centros de quarentena criados pelo governo, onde não há água corrente, eletricidade, sabão ou máscaras, contribuem para a propagação do coronavírus.

Profissionais que atuam no campo da ajuda humanitária e médicos estão preocupados com as condições nesses centros, mas dizem que as autoridades vêm realizando testes rigorosamente e que algumas pessoas que retornam ao país estão subornando soldados para evitarem a quarentena.

“As pessoas pagam US$ 20 para os guardas as deixarem entrar no país”, disse Martin Carballo, médico especialista em doenças infecciosas de Caracas. “Agora temos uma transmissão comunitária bem instalada”.

O governo Maduro e a oposição venezuelana assinaram um acordo no mês passado para coordenar os esforços de socorro através da Organização Pan-americana de Saúde. Segundo esse acordo seriam utilizados fundos do governo congelados pelos Estados Unidos e governos europeus para compra de equipamentos de proteção, remédios e suprimentos médicos.

Jarbas Barbosa da Silva, diretor assistente da organização, disse esperar este mês a finalização do com as necessárias medidas de transparência por parte do governo venezuelano em troca dos suprimentos médicos. Mas isto pode não ocorrer tão breve.

A organização já enviou à Venezuela equipamentos de proteção pessoal.

“Naturalmente eles ainda têm necessidades e estamos tentando enviar mais. Quando os trabalhadores da área de saúde não estão protegidos isto se torna um problema porque outros terão medo de ir aos hospitais.

“É muito importante que o processo avance rapidamente”, afirmou. /Tradução de Terezinha Martino 

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