Nicole Kolster/
Nicole Kolster/

Governo Maduro esconde filas em porão de supermercado

No aniversário da tentativa de golpe de Chávez de 1992, apoiadores saem em marcha por Caracas

Felipe Corazza, enviado especial/ CARACAS, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2015 | 02h01

O chavismo realizou ontem uma grande marcha em Caracas para celebrar os 23 anos da tentativa de golpe de Estado liderada pelo ex-presidente Hugo Chávez em 1992. Enquanto milhares se concentravam em praças da cidade, consumidores que tentavam comprar produtos escassos no mercado estatal Bicentenário, na Praça Venezuela, foram levados ao porão do lugar para que a fila não aparecesse abertamente.

A aglomeração para compras no Bicentenário ocorre diariamente. Em busca de produtos como papel higiênico, frango e farinha de milho, fregueses esperam por horas em uma fila que chega a dar uma volta completa no quarteirão - como a reportagem testemunhou no sábado. Ontem, oito agentes da Guarda Nacional Bolivariana (GNB) controlavam, no subsolo, a "fila oculta".

Cadeiras brancas foram espalhadas pelo estacionamento para os clientes que esperavam. A proibição de fazer reportagem no lugar foi informada ao Estado e a uma equipe local de TV via web pelo comandante da guarnição da GNB, que controlava a situação.

"Não é arbitrariedade nossa. É uma ordem que temos. Fotos daqui vão se espalhando por aí e criam essa matriz de opinião que vocês da imprensa têm", afirmou o comandante, cuja tarja de identificação estava oculta sob o colete à prova de balas e um rádio comunicador.

De fuzis em mãos, os soldados também orientavam os consumidores e liberavam, de quando em quando, a entrada no mercado. O presidente Nicolás Maduro afirma diariamente que há uma "guerra econômica" contra o país, conduzida, de acordo com ele, por empresários do setor privado e por conspiradores do exterior.

Donos de uma rede de farmácias foram presos no fim de semana por "esconderem produtos para provocar filas desnecessárias". O Bicentenário, no entanto, é um supermercado estatal.

Enquanto o comandante explicava a ordem para impedir imagens, um dos guardas armados pedia para que o cinegrafista mostrasse a câmera. O agente pediu para ver tudo que havia sido gravado no aparelho na data de ontem, sob pena de detenção caso houvesse recusa.

Do lado de fora, os chavistas se organizavam em caminhões e micro-ônibus para irem à Academia Militar, onde houve um desfile e de onde, pouco depois, partiu a marcha com destino ao Quartel da Montanha, no bairro 23 de Enero, local onde está o túmulo de Chávez.

Regulação. Maduro prometeu, no início da madrugada de ontem (horário de Brasília), um decreto para regulamentar a produção de farinha de milho. O produto, um dos mais escassos, é também um dos mais utilizados tradicionalmente na alimentação cotidiana dos venezuelanos.

"Peço a colaboração de todos os empresários envolvidos. Vamos trabalhar", disse, na estreia de seu novo programa de TV noturno - Contacto con Maduro. A nova regulação (o preço já é tabelado pelo governo) diz respeito, segundo Maduro, às empresas que "adicionam um saborzinho mentiroso" à farinha para cobrar preços mais altos.

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