Governo militar egípcio rejeita missão da ONU

Equipe investigaria violações dos direitos humanos, mortes de manifestantes e abusos

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2011 | 00h00

O novo governo militar egípcio rejeita a entrada de uma missão da ONU no Cairo para investigar as violações dos direitos humanos, mortes de manifestantes e abusos contra mais de 120 jornalistas estrangeiros e locais. A informação foi confirmada por Anders Kompass, diretor de operações do Escritório da Alta Comissária de Direitos Humanos da ONU. Segundo a organização, os confrontos no Egito antes da queda de Hosni Mubarak deixaram cerca de 300 mortos, mais de 4 mil feridos e dezenas de desaparecidos.

Um dos temores é que o relatório leve à conclusão de que os abusos foram cometidos por agentes do governo, provocando expectativas e até obrigações legais para que as mortes e violações sejam levadas ao tribunais. Um dos pontos negociados por Mubarak seria o de que sua saída não significaria a abertura de um processo contra ele.

Após a queda de Mubarak, o controle do país ficou nas mãos dos militares que prometeram conduzir um processo de reformas e uma transição. Mas a relação com a ONU seria o primeiro sinal concreto de que as mudanças poderão ser lentas.

"O governo está hesitante em aceitar a missão da ONU", disse Kompass. "Vamos continuar negociando e esperamos que aceite. A avaliação de direitos humanos ajudará a dar legitimidade e colocará o tema como um dos pilares da transição", disse. Na Tunísia, a ONU conseguiu enviar uma missão uma semana após a queda do presidente.

Nos últimos dias, o novo governo egípcio enviou a EUA, Alemanha, França e Grã-Bretanha um pedido para que assessores de Mubarak tenham suas contas bloqueadas. Mas nenhum membro da família do ex-ditador nem o próprio presidente foi incluído na lista. "Ainda não temos um novo governo", disse Kompass, referindo-se ao fato de que grande parte da cúpula militar ainda é a mesma. Para a assessora legal do Escritório da Alta Comissária de Direitos Humanos da ONU, Mona Rishmawi, o processo de transição está apenas começando: "Os governos precisam responder às demandas da população. Caso contrário, a desilusão será grande e não sei o que pode ocorrer".

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