Governo pede que dona do 'Clarín' seja ouvida na Justiça

Segundo Casa Rosada, jornal usou tortura para comprar ações da Papel Prensa durante a ditadura militar argentina

BUENOS AIRES , O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2011 | 03h02

O governo da presidente Cristina Kirchner, por intermédio da Secretaria de Direitos Humanos da Argentina, solicitou ao juiz federal Julio Ercolini a convocação para depoimento da dona do jornal Clarín, Ernestina Herrera de Noble, sobre o suposto uso de tortura para obter a compra de ações da empresa Papel Prensa, em 1977, durante a ditadura militar argentina (1976-83).

No pedido à Justiça a secretaria sustenta que a dona do Clarín deveria ser acusada de "crimes contra a humanidade". Além de Ernestina e do CEO do jornal, Héctor Magnetto, o governo Kirchner também pediu à Justiça a convocação de Bartolomé Mitre, um dos donos do La Nación, empresa que também participou da compra de ações da Papel Prensa na época. O pedido também inclui o ex-ditador Jorge Rafael Videla e seu ministro da Economia, José Alfredo Martinez de Hoz.

O pedido para levar a dona do Clarín aos tribunais coincide com a nova ofensiva do governo contra a holding multimídia. Na terça-feira, por ordem do juiz Walter Bento, da Província de Mendoza, a principal empresa do grupo, a Cablevisión, operadora de TV a cabo, foi alvo de uma blitz da Gendarmería (força de segurança especializada em debelar distúrbios e em vigilância de fronteiras) e de uma tentativa de intervenção.

Líderes da oposição criticaram a invasão da Cablevisión. A deputada Patrícia Bullrich, do União por Todos, afirmou que Cristina está realizando um processo de "chavização" da Argentina, em alusão ao presidente venezuelano, Hugo Chávez, que há anos adota duras restrições à ação da imprensa.

"O governo Kirchner usa o aparelho do Estado com o único objetivo de liquidar o Grupo Clarín", disse. A direção da empresa prometeu recorrer da decisão judicial de concorrência desleal, emitida em Mendoza, uma província na qual a Cablevisión não opera, a pedido do Grupo Uno, concorrente e alinhado ao governo.

Caso Graiver. O governo afirma que os diretores do Clarín e do La Nación estiveram por trás da detenção e tortura de Lidia Papaleo de Graiver, viúva de David Graiver, dono da Papel Prensa. O chanceler Héctor Timerman alega que a viúva de Graiver foi forçada a repassar a empresa aos dois maiores jornais do país em 1976.

No entanto, parentes de Graiver, também torturados pelos militares, afirmam que o governo deturpa a realidade, já que a venda ocorreu em novembro de 1976, enquanto a tortura teria ocorrido em março de 1977.

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