Claudio Reyes/AFP
Claudio Reyes/AFP

Governo Piñera se reúne pela primeira vez com manifestantes no Chile

Solicitações incluem aumento do salário mínimo e substituição do sistema de previdência privada; governo não chegou a nenhum acordo com lideranças sociais

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2019 | 23h38

SANTIAGO - O governo do Chile se reuniu com organizações sociais nesta quinta-feira, 28, pela primeira vez desde o início dos protestos, há 42 dias, onde são registrados episódios de violência e saques que não cessam.

Convocada pelo governo do presidente Sebastián Piñera, a reunião significou uma primeira abordagem, mas ainda não se traduz em um caminho mais concreto de negociação eficaz para acabar com a crise que atinge fortemente a economia do país e desvaloriza o peso chileno, forçando o Banco Central a intervir no mercado de câmbio com a injeção de US$ 20 bilhões de dezembro até o fim de maio.

O encontro reuniu representantes do governo e o chamado Conselho da Unidade Social, que conta, entre outros, com o Sindicato dos Professores, a Central Unitária de Trabalhadores e a organização "No + AFP", que busca encerrar o criticado sistema de aposentadoria privada (AFP).

"Fomos muito claros sobre não estarmos disponíveis para uma negociação pelas costas das pessoas, que não é nosso espírito, que são eles que precisam dar respostas agora às demandas apresentadas", disse Mario Aguilar, presidente do Sindicato dos Professores.

Sem líderes mais destacados, o Conselho da Unidade Social ganhou terreno. Entre as solicitações dessa organização, está o aumento do salário mínimo dos atuais US$ 374 para US$ 664 e a substituição do sistema de previdência privada, para dar lugar a uma distribuição.

O ministro do Interior, Gonzalo Blumel, que presidiu a reunião, disse: "Concordamos em iniciar um diálogo em torno das questões prioritárias da agenda social", cujos eixos fundamentais são a renda dos trabalhadores, proteção do emprego, acesso à saúde e medicamentos, além da reforma da previdência.

Já a Câmara dos Deputados declarou admissível una "acusação constitucional" contra o ex-ministro do Interior e primo de Piñera, Andrés Chadwick, permitindo assim que o processo político prossiga no Senado.

O Congresso também analisa reformas e leis promovidas pelo governo para maior controle da ordem pública, como um projeto para punir os manifestantes que causam atos de vandalismo e um que busca permitir que os militares protejam a infraestrutura pública.

Banco Central socorre

Em meio às violentas manifestações e incidentes que ocorrem diariamente desde 18 de outubro em várias partes do país, tendo seu epicentro em Santiago, na Plaza Italia, onde os manifestantes se reuniram novamente contra a polícia, o mercado de câmbio voltou a mostrar seu nervosismo e levou a uma cotação histórica do dólar, sendo negociado a 828,36 pesos.

O BC justificou sua intervenção no mercado com a injeção dos US$ 20 bilhões, citando que "um grau excessivo de volatilidade da taxa de câmbio (...) gera preocupações de mercado".

Com esse movimento, o BC aumenta sua aposta a favor do peso que recuou em meados de novembro, injetando cerca de US$ 4 bilhões no mercado.

Saques

Enquanto o governo tenta avançar em acordos políticos e manobras para proteger a economia, ataques a empresas foram registrados em várias partes de Santiago e outras cidades, onde grupos de pessoas - principalmente com antecedentes criminais, segundo fontes judiciais - continuaram a invadir lojas e supermercados.

Numa cerimônia de formação de novos policiais civis, o presidente Piñera disse que "estamos diante de um inimigo poderoso e implacável que não respeita nada nem ninguém, que não respeita a vida dos seres humanos".

Simultaneamente, um grupo de manifestantes feridos pelo uso de balas pela polícia protestou em frente à sede do governo. Fontes médicas indicam que foram atendidas cerca de 300 lesões oculares desde o início dos protestos.

"Perdi minha visão totalmente e, na última quinta-feira, eles conseguiram tirar o fragmento da bala. Eles também tiraram meus olhos e vou ter que usar uma prótese por toda a vida", disse Diego Jara à agência France Press.

O clima de agitação causou uma nova suspensão de um evento esportivo: uma etapa do Campeonato Mundial de Rally 2020, prevista para abril de 2020. / AFP

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