EFE / Massimo Percossi
EFE / Massimo Percossi

Governo populista italiano planeja gastar mais e deportar 500 mil

Entre os planos da aliança M5S-Liga está a redução da idade mínima da aposentadoria e a criação da Renda da Cidadania; custo geral do programa econômico oscila entre € 100 bilhões e € 150 bilhões

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

01 Junho 2018 | 20h25

Depois de 89 dias de impasse político, a Itália pôs fim à mais longa crise institucional nos 70 anos da atual república. A coalizão formada pelo populista Movimento 5 Estrelas (M5S) e pelo partido de extrema direita Liga assumiu nesta sexta-feira, dia 1º, o poder de forma oficial, com o desconhecido e controvertido jurista Giuseppe Conte como primeiro-ministro.

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Escolhido como 65.º premiê italiano, ele terá a seu lado os líderes dos dois partidos que lhe dão sustentação: Luigi Di Maio como ministro do Trabalho, e Matteo Salvini no Interior, postos-chave do governo. 

A posse ocorreu na sexta-feira, 1º, com o aval final do presidente Sergio Mattarella. Uma primeira reunião foi realizada para fixar as prioridades do novo gabinete, formado por 18 ministros, dos quais 5 mulheres.

À mesa, estavam nomes como o de Giovanni Tria, jurista próximo da extrema direita e escolhido para ser o novo ministro da Economia. Em uma primeira declaração logo após a posse, ele se esforçou para tranquilizar os mercados financeiros indicando que a coalizão não planeja a saída da Itália da zona do euro e da União Europeia: “Na Itália, nenhuma força política quer abandonar o euro”.

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A informação contrastou com as afirmações de Salvini, vice-premiê – assim como Di Maio –, segundo o qual o novo governo vai procurar renegociar os tratados europeus – os acordos internacionais que estabelecem as regras de funcionamento da União. Para essa função o nome escolhido foi o de Paolo Savona, o mesmo economista de perfil eurocético cuja nomeação desencadeou a última crise política no país, com o veto imposto por Mattarella à coalizão.

No campo econômico, área de influência do M5S, uma série de medidas de caráter populista será adotada nas próximas semanas. Em um país minado pela dívida pública de 132% do PIB – a segunda mais elevada da UE, atrás apenas da Grécia –, o novo governo promete reduzir a idade mínima para aposentadoria, uma baixa generalizada de impostos (flat tax) e a criação de um programa de renda universal, chamado de Renda de Cidadania, de ¤ 780 por mês.

O custo geral do programa econômico oscila entre € 100 bilhões e € 150 bilhões, segundo economistas, mas o plano do governo não detalha de onde virão as provisões para tal. Uma das alternativas evocadas seria uma taxa sobre empresas que decidam transferir atividades para outros países, produzindo a custos inferiores graças à mão de obra mais barata. Já a hipótese de pedir a supressão da dívida italiana em mãos do Banco Central Europeu, evocada como alternativa, já foi abandonada.

Em seu tom agressivo habitual, Salvini insinuou na noite de quinta-feira que parte dos recursos viria do corte de gastos com programas de auxílio a imigrantes, hoje avaliado em € 5 bilhões. Agora no cargo encarregado da gestão da polícia, incluindo a de fronteiras, o líder da Liga prometeu expulsar 500 mil imigrantes hoje em solo italiano.

“As portas da Itália estão abertas para as boas pessoas e fechadas àqueles que vêm para fazer barulho”, advertiu, sugerindo o corte de gastos. “Eu estive com o primeiro-ministro e pedi a ele que preste atenção nesses € 5 bilhões anuais que são alocados para a manutenção dos candidatos a refugiados”.

Salvini também prometeu um garrote securitário, com o fim do direito à redução de pena para condenados por crimes graves.

Em Bruxelas, os líderes da União Europeia manifestaram satisfação pelo fim da crise política italiana, ainda que saibam que terão no governo local um crítico ferrenho. Segundo Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, todos estão “prontos a trabalhar com o governo” para “enfrentar os numerosos desafios estratégicos”, como o acolhimento dos imigrantes e a reforma da zona do euro. 

Mas, em mais um ato falho dos dirigentes europeus, Juncker alertou na quinta-feira os membros do novo governo que não aceitará que Bruxelas seja responsabilizada pela miséria no interior da Itália. “Eu não aceito mais que tudo o que vai mal no Sul da Itália, no Mezzogiorno, seja explicado pelo fato de que a UE não faz o suficiente”, esbravejou. “Cabe aos italianos se ocuparem das regiões pobres da Itália. Isso significa mais trabalho, menos corrupção, mais seriedade.”

Em meio ao atrito com os membros do novo governo, a Comissão Europeia veio a público nesta sexta-feira, dia 1º, afirmar que as palavras de Juncker foram “tiradas de contexto”.

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