Governo provisório argentino gera pessimismo

Observadores da política argentina estão pessimistas com o desempenho do governo provisório de Adolfo Rodríguez Saá, que tomou posse domingo para um ?mandato tampão? de pouco mais de 60 dias, até que seja eleito quem vai completar o período do ex-presidente Fernando de la Rúa. Para o analista político Oscar Raul Cardoso, apesar da rápida solução que os peronistas encontraram para evitar um vazio de poder, "a Argentina continua numa grande crise de governabilidade, que poderá desembocar em novos episódios de violência social". Cardoso observa que o cenário ainda é bastante confuso e que Rodríguez Saá terá que tomar decisões de grande alcance econômico e social sem estar respaldado por um consenso político nem mesmo dentro do partido justicialista. As medidas já anunciadas, segundo ele, ainda não representam uma solução para os graves problemas do país. Não está claro, por exemplo, como um governo interino poderá renegociar com os credores externos uma dívida de US$ 142 bilhões, nem como será criado o 1 milhão de empregos prometidos pelo presidente em seu discurso de posse. Problemas - O governo interino já nasce com vários problemas, segundo Cardoso. Além de ser provisório, ele obteve sua legitimidade não das urnas, mas de uma assembléia legistativa formada para resolver o problema político-institucional criado com a renúncia de Fernando de la Rúa, que já não possuía vice-presidente. O vice eleito, Carlos "Chacho" Alvarez, havia abandonado o cargo com apenas dez meses de mandato. A convocação da assembléia obedeceu a um preceito constitucional. Já a definição de um mandato provisório foi um expediente encontrado pelos peronistas para acomodar as disputas internas pela liderança do partido e ganhar tempo para a definição de um candidato que, uma vez eleito, aí sim possa ter força política para assumir maiores responsabilidades de governo. Além disso, Roríguez Saá vem de uma província - San Luís - considerada politicamente menos importante do que as grandes, como Buenos Aires e Córdoba. "Nem o presidente nem nenhum de seus ministros ocupa um espaço grande na política nacional, o que dificulta a obtenção de consensos e as articulações políticas", afirma Cardoso. Com todas essas limitações, Rodríguez Sá será compelido a tomar decisões de grande importância para o país. "A gravidade da crise não lhe concede um período para que apenas administre a situação. Os problemas não podem esperar mais", diz o analista. "E ele terá que decidir em meio a um contexto de desagregação social". Tolerância - Oscar Raul Cardoso acredita que as medidas sociais, como a distribuição emergencial de alimentos entre as camadas mais atingidas pela crise econômica, dará a Rodríguez Saá um breve tempo de tolerância entre a população. Contudo, é preciso que se encontrem rapidamente formas de recolocar o país no caminho do crescimento econômico, única forma duradoura de solucionar os problemas argentinos. Sem isso, diz o analista, a saída de Fernando de la Rúa pode não ter sido o fim, mas o começo de um processo ainda mais grave de deterioração política. Segundo Cardoso, embora sejam no momento a única força política capaz de encaminhar uma saída para a crise, os peronistas poderão perder rapidamente o apoio popular de que ainda dispõem, se não conseguirem dar resposta efetiva aos problemas do país. Leia o especial

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