Sputnik/Evgeny Paulin/Kremlin via REUTERS
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Governo Putin força dissidentes ao exílio, em maior fuga política na história pós-soviética

Figuras da oposição, seus assessores, ativistas de direitos humanos e até jornalistas independentes têm cada vez mais que fazer uma escolha sombria: fugir ou enfrentar a prisão

Anton Troianovski, The New York Times, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2021 | 08h00

MOSCOU — Evocando a era das trevas da repressão soviética, políticos e jornalistas russos estão sendo forçados a se exilar em números cada vez maiores. O fluxo constante de emigração com motivação política que acompanhou o governo de duas décadas do presidente Vladimir Putin se transformou em uma torrente este ano. Figuras da oposição, seus assessores, ativistas de direitos humanos e até jornalistas independentes têm cada vez mais que fazer uma escolha sombria: fugir ou enfrentar a prisão.

Uma das principais aliadas do líder da oposição preso Alexei Navalny deixou a Rússia este mês, disse a mídia estatal, colocando-a em uma lista de dezenas de dissidentes e jornalistas que devem ter partido este ano. Juntos, dizem os especialistas, é a maior onda de emigração política na história pós-soviética da Rússia.

As partidas forçadas deste ano lembram uma tática aperfeiçoada pela KGB durante as últimas décadas da União Soviética, quando a polícia secreta dizia a alguns dissidentes que eles podiam ir para o Oeste ou para o Leste — para o exílio ou para um campo de prisioneiros na Sibéria

Agora, da mesma forma, o Kremlin parece apostar que forçar os críticos de alto nível a deixar o país é menos uma dor de cabeça do que prendê-los, e que os russos no exterior são fáceis de pintar como traidores em conluio com o Ocidente.

“A estratégia deles é: primeiro, pressioná-los [a sair do país]”, disse Dmitri Gudkov, um popular político da oposição de Moscou que fugiu em junho. “E se você não puder pressioná-los, jogue-os na prisão.”

Em 7 de agosto, Lyubov Sobol, a aliada mais proeminente de Navalny que havia permanecido na Rússia, voou para a Turquia, informaram canais de televisão pró-Kremlin. A fuga aconteceu depois que um tribunal condenou Sobol a um ano e meio de restrições de deslocamento, incluindo a proibição de deixar a região de Moscou. Mas as autoridades lhe concederam algumas semanas de liberdade antes de a sentença entrar em vigor — um sinal claro que ela tinha uma última chance de escapar.

“É melhor, claro, participar da política russa de dentro da Rússia”, disse Sobol em uma entrevista recente. “Mas, por enquanto, os riscos são muito grandes.” Na segunda-feira, agências de notícias russas informaram que a porta-voz de Navalny, Kira Yarmysh, também havia deixado o país.

A enxurrada de partidas deste ano — desencadeada pela repressão à dissidência que se seguiu ao retorno de Navalny à Rússia em janeiro — inclui mais de uma dúzia de figuras nacionais e regionais do movimento de Navalny, considerado extremista pelo Kremlin; outros ativistas da oposição de todo o país; e jornalistas cujos meios de comunicação foram proibidos ou rotulados como "agentes estrangeiros".

Dois meios de comunicação e um grupo de direitos legais na Rússia, apoiado pelo ex-magnata do petróleo Mikhail Khodorkovski — que passou 10 anos na prisão depois de entrar em conflito com Putin e agora mora em Londres — fecharam este mês depois que organizações ligadas a ele foram declaradas "indesejáveis".

Andrei Pivovarov, ex-líder do movimento Rússia Aberta, fundado por Khodorkovski, foi preso depois de embarcar em um voo para Varsóvia em maio — um sinal de que nem todos os dissidentes estão tendo permissão para fugir.

“Eu acreditava que era imperativo continuar trabalhando abertamente e em público até o último momento, enquanto essa possibilidade existisse”, disse Khodorkovski, que agora pondera: “Os riscos desse tipo de trabalho tornaram-se grandes demais.”

Enquanto os líderes da oposição deixam o país, a mídia pró-Kremlin relata com desprezo suas partidas. Um comentário postado no Telegram, por exemplo, disse que a saída de Sobol mostrou que "os Navalnyistas só podem ser associados a ratos covardes".

Membros da oposição associados a Navalny tentam manter sua influência por meio de investigações de corrupção e transmissões ao vivo no YouTube e fazendo campanha por um voto de protesto coordenado nas eleições parlamentares russas em setembro. Mas não destacam o fato de estarem no exterior.

Ivan Zhdanov, diretor executivo da equipe de Navalny, deixou a Rússia em janeiro, ajudando a coordenar, do exterior, os protestos que se seguiram ao retorno e prisão de Navalny. Ele decidiu não voltar depois que as autoridades russas o acusaram de recrutar menores para protestar. Em uma entrevista por telefone de um local na Europa que ele não quis revelar, argumentou que o campo de batalha da política russa havia praticamente se movido para a esfera digital.

“O que importa é o que estamos fazendo, não se um determinado funcionário ou um certo número de funcionários cruzou a fronteira da Federação Russa”, disse Zhdanov. Mas as autoridades não conseguem reconhecer a importância da Internet, disse Gudkov, que serviu no Parlamento de 2011 a 2016.

“Nossos generais nas agências de segurança se preparam para a última guerra”, disse de seu atual local de refúgio, na Bulgária. “Agora, se você sair, será ouvido da mesma forma, se não melhor.”

Alguns críticos de Putin discordariam. Yulia Galyamina, que ajudou a liderar uma campanha contra um referendo no ano passado que permitiu a Putin governar até 2036, disse que se recusou a aceitar a sugestão de sair do país enquanto estava sob investigação criminal. 

Ela recebeu uma sentença de suspensão válida por dois anos, impedindo-a de concorrer ao Parlamento em setembro. Ela agora trabalha com outro candidato da oposição, mas evitando protestos de rua por conselho de seu advogado. “Sinto muito, mas como as coisas vão mudar aqui se todos forem embora?”, ela disse. “Quando tudo começar a desabar, o poder cairá nas mãos de quem está por perto.”

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