Governo quer que britânicos fiscalizem imigração ilegal

Proposta de reforma, que será votada pelo Parlamento, e campanha vista como racista causam polêmica na Grã-Bretanha

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2013 | 02h10

O Parlamento britânico estuda uma reforma na lei de imigração que tem causado polêmica no país. Proposta em 10 de outubro pelo Ministério do Interior, a reforma determina que proprietários de imóveis e banqueiros exerçam um papel de fiscalização quando depararem com um imigrante.

Alguns pontos da reforma, colocados no site do ministério, são: reduzir de 17 para 4 o número de decisões sobre deportação que podem ser contestadas por recurso; deportar um criminoso estrangeiro e só depois ouvir seu recurso, em casos em que não hajam riscos de danos graves ou irreversíveis; exigir que proprietários chequem o status da imigração da pessoa antes de oferecer um imóvel para locação; exigir que imigrantes residentes no país com visto temporário contribuam com o sistema nacional de saúde e exigir que bancos verifiquem um sistema de dados sobre imigrantes antes de abrir uma conta.

"Ninguém apoia essas exceções racistas", afirma a advogada criminal londrina Soala Nengie BobManuel-Orupado, de 36 anos, sobre as exigências feitas a profissionais antes de fornecerem um trabalho a imigrantes. "Essa tarefa de fiscalizar é do governo e não da população, além disso, pessoas podem mentir. Como um proprietário pode ser um detetive?"

Nengie acredita que, mesmo sem o apoio da maior parte da população, o Parlamento aprovará a reforma - que pode se transformar em lei em 2014. "Existe discriminação em Londres, de uma forma mais dissimulada, mas existe", disse.

Em declaração no site do Ministério do Interior, o ministro da Imigração, Mark Harper, defende a reforma como um modo de "impedir que imigrantes usem serviços públicos aos quais não têm direito". Harper ressalta que o país continuará dando boas-vindas aos "imigrantes que seguem as regras", e que a mudança "ajuda a expulsar aqueles que não deveriam estar no país. A lei deve estar do lado de quem a cumpre e não de quem a quebra".

Irritação. Três meses antes de propor a reforma, o ministério lançou uma campanha contra a imigração legal pelas ruas de Londres. Vans do próprio ministério percorreram bairros onde há concentração de imigrantes com um cartaz com o desenho de um par de algemas, a quantidade de imigrantes ilegais presos na região e a frase "vá para casa ou enfrente a prisão".

A campanha começou em julho e poderia ser ampliada para todo o país, mas rendeu reclamações ao governo e, após seis dias, precisou ser interrompida. "As pessoas ficaram muito irritadas e o governo recebeu 60 reclamações em 72 horas. Até integrantes da coalizão governamental foram contra", disse Nengie. Muitas das reclamações remetiam a slogans utilizados por grupos racistas para atacar imigrantes. "Isso me lembrou casos dos anos 60, 70, quando meu pai estava na Inglaterra as pessoas diziam para ele voltar para casa, para o buraco de onde veio e coisas parecidas", disse Nengie.

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