Alexander Zemlianichenko/AP
Alexander Zemlianichenko/AP

Governo russo coage famílias de opositores

Órgão de Ministério do Interior interroga pais e avós de rivais do candidato Putin

TALITA EREDIA , ENVIADA ESPECIAL / MOSCOU, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2012 | 03h03

MOSCOU - O ativista Ilya Klishin, de 24 anos, surpreendeu-se quando seu pai, que vive em Tambov, a 500 km de Moscou, foi convocado para um interrogatório pelo Centro de Combate ao Extremismo (Centro E), órgão do Ministério do Interior russo que verifica violência com motivações étnica, religiosa ou ideológica. As autoridades queriam detalhes sobre a visita de Klishin a Kazan, onde ele teria se reunido com outros organizadores de protestos.

 

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Segundo o governo, ele era suspeito de incitar o ódio étnico. A mãe de Klishin também recebeu um telefonema da FSB, o serviço federal de segurança que sucedeu a KGB. Dias antes, a avó do jornalista fora visitada por um funcionário do Centro E. "Ao aterrorizar os meus pais, tentaram me pressionar. Se a polícia tem algo para discutir comigo, discuta. Meu telefone é de conhecimento público e estou disposto a visitar uma delegacia com a presença de um advogado", escreveu o ativista em sua conta no Facebook no dia do interrogatório, em janeiro. Ao Estado, Klishin afirmou que a perseguição aos seus parentes terminou quando o caso foi divulgado na mídia, mas que não houve ameaças contra ele.

"Participei das manifestações de dezembro como cidadão e profissional de imprensa. Decidi criar uma página no Facebook para informar as pessoas o máximo possível sobre o que estava acontecendo. Até então, eu não tinha nenhuma relação com organizadores de protestos", afirmou Klishin. "Acabei fazendo parte de um grupo que coordena os protestos. Apenas ajudo os organizadores com as mídias sociais."

Cerco. O uso de uma agência estatal contra a família de críticos do governo lembra os tempos de Josep Stalin, mas a prática tem se tornado cada vez mais comum na era Putin. Segundo relatório da ONG Agora, o governo utiliza a lei de antiextremismo contra opositores. A maioria dos 117 ativistas processados em 2011 foi enquadrada na legislação.

Ainda de acordo com a entidade, mais de 4 mil pessoas foram presas no ano passado em mais de 750 protestos realizados na Rússia - mesmo que brevemente. Além disso, foram realizadas pelo menos 25 buscas policiais em escritórios e casas de ativistas de ONGs.

"Não há dúvidas de que crimes de ódio contra grupos sociais precisam ser controlados. A questão mais delicada é que os Centros E estão sendo usados contra a população que critica o governo, o Parlamento, a polícia, o Exército. O pessoal dos centros interpreta que esses agentes de segurança estão sendo ameaçados pelos críticos do governo. Assim, as verdadeiras vítimas de perseguição são blogueiros, jornalistas, ativistas de direitos humanos e políticos de oposição", disse ao Estado o presidente da Agora, Pavel Chikov.

Para entender o Centro E, é preciso entender as especificidades do processo penal russo. Há duas funções distintas: detetives e investigadores. Os primeiros são responsáveis por encontrar informações e coletar evidências sobre determinados crimes e criminosos, mas não conduzem a investigação, nem mesmo os interrogatórios formais. Os investigadores são responsáveis por essa etapa e acompanham o caso até a Justiça. Os detetives da polícia podem, entretanto, entrevistar pessoas e recrutar informantes. São esses funcionários que trabalham nos Centros de Combate ao Extremismo.

"Mais do que qualquer coisa, isso significa monitorar a internet, as redes sociais, a mídia, os panfletos, as manifestações", explicou Chikov. "A pessoa suspeita é chamada para uma conversa informal. Tentam persuadi-la a parar com a atividade em questão e a ameaçam com processos criminais. Se há motivos, podem até revistar apartamentos e apreender computadores, celulares e outros equipamentos."

Manual

 

A intimidação tornou-se tão frequente que a Agora elaborou um guia sobre como se comportar em um interrogatório. A presença de um advogado coíbe abusos psicológicos e garante que as autoridades cumpram a lei.

A lei antiextremismo permite ainda que o órgão emita uma advertência sobre os riscos que participar de um protesto pode representar - medida considerada psicologicamente coercitiva pela ONG.

"Todos os dias recebemos mensagens de várias cidades russas sobre as medidas preventivas dos centros contra líderes de protestos. Isso significa claramente que o Ministério do Interior recebeu instruções para controlar e minimizar essas atividades", afirmou Chikov.

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