Governo Sarkozy adota o tom belicoso de Bush

Com o Irã, "é preciso preparar-se para o pior, que é a guerra". A frase não é de Dick Cheney, vice-presidente de George W. Bush, mas do ministro francês das Relações Exteriores, Bernard Kouchner, que se limita a repetir as ameaças de seu chefe, o presidente Nicolas Sarkozy. No mês passado, Sarkozy disse que, se fracassar a pressão diplomática para o fim do programa nuclear iraniano, o mundo terá de "aceitar a bomba do Irã ou bombardear o Irã". Kouchner adotou o discurso de Sarkozy - e com linguagem mais belicosa que a de Washington, o que não deixa de ser cômico. Kouchner é um socialista daqueles que gritavam em maio de 1968 nas ruas de Paris: "Faça o amor, não a guerra." Agora, a ofensiva belicosa de Sarkozy e Kouchner está afinada com Washington. Kouchner é muito ligado a Condoleezza Rice e Sarkozy gosta de dividir churrascos com George W. Bush. Pode-se imaginar que os EUA, preocupados em convencer Teerã do perigo, prefiram que as ameaças sejam feitas por um país moderado, a França, e por um "ministro humanitário", Kouchner. Entretanto, apesar de Washington mostrar-se mais diplomática que Paris, as linhas gerais são idênticas. Queimados até os ossos pelo desastre iraquiano e inquietos com o frenesi do presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad, os EUA buscam intimidar Teerã. Prova disso são dois acontecimentos recentes. Na semana passada, a França propôs um endurecimento das sanções ao Irã no âmbito europeu e não mais da ONU. E, em 15 de agosto, os EUA colocaram em sua lista de organizações terroristas a Guarda Revolucionária do Irã, força de 125 mil soldados de elite que é a espinha dorsal do regime. Contudo, tão logo Washington e Paris dispararam suas ameaças, acrescentaram que fariam de tudo para evitar a guerra. Em parte porque bombardear o Irã provocaria um caos pior que o do Iraque, mas também porque os seis países que debatem a questão iraniana - EUA, França, China, Rússia, Grã-Bretanha e Alemanha - não compartilham a mesma retórica. Rússia e China, assim como alguns europeus ocidentais, estão convencidas de que o radicalismo de Ahmadinejad não goza de unanimidade nem entre os próprios iranianos. Para esses países, uma pressão diplomática obrigaria o presidente iraniano a ouvir seus opositores moderados. Afinal, foi usando a diplomacia que Condoleezza convenceu a Coréia do Norte a desistir de sua bomba nuclear. O espaço aberto à diplomacia não é nada desprezível. E, quando se leva em conta a tragédia que seria um bombardeio do Irã, tudo deve ser tentado para evitar um derramamento de sangue. *Gilles Lapouge é correspondente em Paris

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