Syrian Observatory For Human Rights
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Governo de Assad permite entrada de ajuda humanitária em cidade sitiada

Moradores de Madaya, cidade ao sul de Damasco com população de 30 mil pessoas, está isolada desde meados de 2015; segundo relatos, moradores comeram terra, gatos e cachorros para sobreviver

Jamil Chade, Correspondente / Genebra

07 Janeiro 2016 | 17h23

GENEBRA - Ameaçada pela fome, a população da cidade síria de Madaya - com uma população de 30 mil pessoas - vai começar a ser abastecida pela ONU. Nesta quinta-feira, 7, a entidade anunciou que o governo sírio autorizou que o local fosse acessado pelas equipes humanitárias. A cidade está sitiada desde meados de 2015 e, segundo os relatos das Nações Unidas, a população nesse período tem comido terra, gatos e cachorros. Muitos, porém, já morrem de fome. 

O bloqueio da cidade, um dos bastiões da oposição ao governo de Bashar Assad, estava sendo realizado por tropas aliadas ao presidente. As cidades de Fua e Kefraya também vivem situações similares. Localizada a 25 quilômetros de Damasco e 11 quilômetros da fronteira com o Líbano, Madaya passou a ser também sitiado pelas forças xiitas do Hezbollah, aliadas de Assad. O bloqueio estaria ocorrendo como represália em razão da perda de duas outras cidades para grupos opositores. 

Com a autorização, a ONU anunciou que está "preparando a entrega de assistência humanitária para os próximos dias". Segundo a entidade, porém, ainda não está claro qual será o volume de ajuda autorizado a entrar na cidade. O bloquei também fez o preço de alimentos disparar e, hoje, um quilo de arroz custa US$ 250, enquanto que 900 gramas de leite em pó vale US$ 300. Há relatos de um homem que vendeu seu carro em troca de 10 quilos de arroz. 

Na terça-feira, um homem de 53 anos morreu de fome e o restante de sua família, de cinco pessoas, sofre de má nutrição profunda. Segundo a ONG Save the Children, se nada for feito com urgência, "crianças vão morrer". 

Para o porta-voz do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, Pawel Krzysiek, "a situação (em Madaya) é dramática". A última vez que um comboio entrou na cidade foi em outubro. Hoje, segundo a ONU, não há leite, remédios ou comida. "As pessoas estão literalmente morrendo de fome", apontou um documento da entidade, em Genebra. Na avaliação da ONU, a situação é de "catástrofe humanitária". 

O que preocupa a organização, porém, é que o acesso pode ser apenas temporário. Em seus relatórios, o Comitê de Inquérito sobre os Crimes na Síria, liderado pelo brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, já alerta há pelo menos três anos que os bloqueios de cidades inteiras tem levado a situações dramáticas para a população. 

Entre os ativistas, o tom também é de hesitação. Muitos apontam que o sinal verde de Assad só veio depois que imagens de crianças subnutridas passaram a ser veiculadas na Europa. Segundo a própria ONU, 4,5 milhões de pessoas na Síria precisam de alimentos e um total de 15 cidades estão sitiadas, com 400 mil pessoas sem acesso a comida.

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