Governo só não controla 1 dos 6 canais a cabo de notícia

Estudioso da Lei de Mídia, José Crettaz diz que Casa Rosada construiu um império midiático na Argentina

BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2012 | 02h06

"Do total de seis canais de TV de presença nacional destinados à transmissão de notícias por cabo, somente um não está sob o controle direto ou indireto do governo da presidente Cristina Kirchner." A afirmação é do jornalista José Crettaz, catedrático de economia da mídia na Universidade Argentina da Empresa (Uade) e um dos principais especialistas do país na Lei de Mídia. "Dos cinco canais de TV abertos da cidade de Buenos Aires, cujo conteúdo é distribuído para todo o país, apenas um permanece fora da órbita do kirchnerismo", afirmou Crettaz ao Estado.

Segundo ele, o controle direto ou indireto sobre a mídia pelos Kirchners começou nos primórdios da carreira política do casal, quando Néstor Kirchner foi prefeito de Rio Gallegos (1987-91) e governador da Província de Santa Cruz (1991-2003), onde conseguiu um sistema de mídia local totalmente alinhado com sua administração.

Desde que os Kirchners chegaram à presidência, a máquina de mídia estatal federal expandiu-se. Além do robustecimento da agência estatal de notícias Télam, a maior do país, Cristina conta com a Rádio Nacional e a TV Pública. Este canal, nos últimos três anos, realiza as transmissões estatizadas de todos os jogos de futebol da primeira divisão. Ao longo dos jogos do esporte mais popular do país, os espectadores somente assistem a publicidade com apologia à presidente Cristina, além de críticas à oposição. O governo também controla canais provinciais e até um canal infantil que tem desenhos animados com "recados ideológicos".

Nos últimos anos, diversos canais privados alinharam-se com maior ou menor grau do governo Kirchner. Esse foi o caso da Telefé, da Telefônica da Espanha, que tem como colunista o senador Aníbal Fernández, braço direito de Cristina na Câmara Alta.

Outro caso é o do canal Nueve, pertencente ao empresário mexicano Remígio González-González, que conta com vários programas de explícito respaldo à administração Kirchner. Tanto o Telefé como o Nueve não poderia continuar existindo, já que seus donos são estrangeiros, algo que está proibido pela Lei de Mídia. No entanto, o governo Kirchner alega com malabarismos jurídicos que os dois canais são "argentinos".

Por intermédio da publicidade oficial, o governo Kirchner também subsidia diversos jornais que exaltam a política da presidente Cristina.

Martín Etchvers, gerente de comunicações externas do Grupo Clarín, disse ao Estado que "mais de 80% das estações de rádio e canais de TV dependem do governo". "Foram cooptados das mais diversas formas, tanto pela compra dos canais realizados por empresários amigos, enormes quantidades de publicidade oficial, concessões regulatórias em troca de acompanhamento editorial, licenças provisórias de TV digital somente para os aliados incondicionais. Isso tem pouco de democratização e muito de hegemonia."

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