David Fernández/EFE
David Fernández/EFE

Governo sugere que arquivo perdido da ditadura compromete Grupo Clarín

Atas secretas encontradas na sede da Força Aérea contêm planos do regime, material doutrinário e, segundo a Casa Rosada, ‘prova’ de que venda de empresa de papel-jornal teria sido feita sob pressão de militares

Ariel Palacios, correspondente em Buenos Aires,

05 de novembro de 2013 | 23h00

BUENOS AIRES - Jornais argentinos informaram na terça-feira, 5, que as 1.500 pastas com atas de reuniões de membros da junta militar que dominou a Argentina de 1976 a 1983 contêm planos políticos do regime, além de material de conteúdo doutrinário. O ministro da Defesa, Agustín Rossi, anunciou a descoberta dos documentos na segunda-feira.

Num momento de confronto entre o governo de Cristina Kirchner e o Grupo Clarín, Rossi ressaltou que os documentos da ditadura trazem detalhes sobre a empresa de papel-jornal Papel Prensa, pivô de um processo na Justiça entre a Casa Rosada e os jornais Clarín e La Nación.

O ministro afirmou que existem 13 atas sobre a venda da Papel Prensa nos anos 70. Segundo ele, os militares relacionavam diretamente "a detenção da família Graiver (os herdeiros da empresa na época) com a venda". O ministro sustentou que "a Justiça decidirá se a documentação tem, além do valor histórico, um valor jurídico para os diversos processos que estão na Justiça". Ele disse "acreditar" que os elementos "ajudam a consolidar a ideia" sobre o hipotético envolvimento dos dois jornais no caso.

Segundo ele, os papéis - o mais vasto registro sobre a ditadura argentina - foram encontrados "por acaso" durante uma limpeza no subsolo do Edifício Condor, a sede da Força Aérea. "Este é um marco importantíssimo nos 30 anos da democracia", disse ontem Lita Boitan, dirigente da organização de Parentes de Desaparecidos e Detidos por Razões Políticas. "Sempre pedimos a abertura dos arquivos e a resposta que nos davam era que eles tinham sido destruídos, não existiam."

O ministro Rossi ressaltou que o material, que será analisado detalhadamente nas próximas semanas, contém indicações de que a ditadura pretendia se manter no poder até o ano 2000.

Papel Prensa. Em 1969, a Papel Prensa foi criada por decreto do ditador Juan Carlos Onganía. Em 1972, o ditador Alejandro Lanusse repassou a empresa para Cesar Augusto Civita e para a Editora Abril. Em 1973, durante o governo de Juan Domingo Perón, o ministro da Economia José Ber Gelbard forçou sua venda ao banqueiro David Graiver, aliado do peronismo.

Além da aliança com Perón, Graiver tinha complexas relações financeiras com os militares. E, de forma paralela e secreta, também com o grupo guerrilheiro Montoneros.

Em 1976, os militares tomaram o poder e, poucos meses depois, Graiver morreu em um estranho acidente de avião no México. Os bancos de Graiver na Europa e nos EUA faliram. Seus herdeiros venderam as ações da Papel Prensa aos jornais três meses após sua morte. Um mês depois, os montoneros pressionaram a viúva. Lidia Papaleo, para que entregasse US$ 17 milhões - valor originário de sequestros, que Graiver havia administrado para a guerrilha.

Seis meses depois de quase ter sido assassinada pelos montoneros, Lidia e o cunhado, Isidoro Graiver, foram detidos pelos militares, que os acusaram de reter o dinheiro dos montoneros. Os militares confiscaram diversos bens da família e torturaram ambos.

Em 2010, em pleno confronto entre Cristina e o Grupo Clarín, Lidia reapareceu, com respaldo do governo, e disse ter sido torturada em 1976 para vender a Papel Prensa. Isidoro, porém, também reapareceu, dizendo que Lidia estava mentindo e a venda foi feita sem pressões.

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