Juan Barreto / AFP
Juan Barreto / AFP

Governo Trump discutiu golpe contra Maduro com militares venezuelanos

Comandantes rebeldes pediram a Washington que apoiasse seu plano

Ernesto Londoño e Nicholas Casey / The New York Times, O Estado de S.Paulo

08 Setembro 2018 | 12h13
Atualizado 08 Setembro 2018 | 18h43

O governo do presidente Donald Trump se reuniu secretamente com militares rebeldes venezuelanos de alta patente ao longo de 2017 para discutir a deposição do presidente Nicolás Maduro, revelaram funcionários americanos e um ex-comandante militar que participou das conversações.

Estabelecer um canal de diálogo clandestino com golpistas na Venezuela foi uma grande aposta para o governo americano, apesar de seu longo histórico de intervenções secretas na América Latina. Muitos países da região ainda se ressentem do fato de os EUA terem apoiado rebeliões e golpes em países como Cuba, Nicarágua, Brasil e Chile e ignorado os abusos cometidos pelos regimes militares durante a Guerra Fria.

A Casa Branca não quis comentar sobre as conversações, mas disse em um comunicado que era importante se engajar em um “diálogo com todos os venezuelanos que demonstram o desejo de democracia” para “levar uma mudança positiva a um país que tem sofrido muito sob o governo Maduro”.

No entanto, um dos comandantes militares envolvidos nas conversações secretas não era uma figura ideal para ajudar a restaurar a democracia: ele está na lista dos EUA de funcionários corruptos na Venezuela. Ele e outros membros do aparato de segurança da Venezuela têm sido acusados por Washington de uma série de graves crimes, incluindo tortura de críticos, prisão de centenas de opositores políticos, tráfico de drogas e colaboração com a ex-guerrilha Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que é considerada uma organização terrorista pelos EUA.

Os americanos acabaram decidindo não ajudar os militares e os planos de um golpe foram paralisados. Mas a disposição de funcionários americanos de se encontrar várias vezes com oficiais rebeldes com o objetivo de derrubar um presidente no continente pode provocar um revés político.

A maioria dos líderes latino-americanos concorda que o presidente Nicolás Maduro é um governante autoritário que arruinou a economia do país, provocando uma grave escassez de alimentos e remédios. O colapso provocou o êxodo de venezuelanos desesperados, que cruzaram as fronteiras sobrecarregando os países vizinhos.

Maduro tem acusado Washington de agir ativamente para obter sua deposição e as conversações secretas podem fornecer ao presidente munição para reduzir a posição contrária a ele na região.

“Isso vai cair como uma bomba na região”, disse Mari Carmen Aponte, que foi diplomata responsável pela América Latina nos últimos meses do governo Barack Obama.

Os militares venezuelanos buscaram acesso ao governo americano durante a presidência de Obama, mas foram ignorados. Então, em agosto de 2017, o presidente Trump declarou que os EUA tinham uma opção militar para a Venezuela – uma declaração que atraiu condenações de aliados na região, mas encorajou os militares rebeldes a tentar contato com Washington novamente.

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“Era o comandante-chefe dizendo isso agora”, afirmou o ex-comandante venezuelano em condição de anonimato, temendo represálias do governo venezuelano. “Não duvidei de que essa era uma mensagem.”

Em uma série de encontros no exterior, que prosseguiram até o início deste ano, os militares disseram aos funcionários americanos que representavam umas centenas de membros das Forças Armadas preocupados com o autoritarismo de Maduro.

Os oficiais pediram aos EUA que lhes fornecessem rádios com sistema criptografado, alegando a necessidade de se comunicarem secretamente enquanto preparavam um plano para instalar um governo de transição para comandar o país até a realização de eleições. Mas o governo rejeitou e o plano naufragou após uma recente operação que levou à prisão de dezenas de rebeldes.

Relações diplomáticas

Há anos as relações entre os EUA e a Venezuela estão estremecidas e os dois países não têm embaixadores desde 2010. Mas desde que Trump assumiu a presidência seu governo intensificou as sanções contra funcionários venezuelanos de alto escalão, incluindo o próprio Maduro, seu vice-presidente e vários ministros e militares.

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A revelação dos encontros clandestinos e as conversações que os precederam tem como base entrevistas com 11 atuais e ex-funcionários americanos, assim como o ex-comandante militar. Ele disse que há três distintos grupos nas Forças Armadas venezuelanas que já tramaram contra o governo Maduro. 

Um deles estabeleceu contato com o governo americano por meio da embaixada dos EUA em uma capital europeia. Quando a notícia chegou a Washington funcionários da Casa Branca ficaram intrigados e apreensivos. Eles temiam que o pedido de encontro pudesse ser um plano para gravar secretamente um funcionário americano falando em conspirar contra o governo venezuelano, disseram funcionários.

Mas, quando a crise humanitária piorou em 2017, os funcionários americanos tiveram uma clara ideia dos planos e dos riscos que os homens que estavam tentando depor Maduro corriam. “Após uma série de discussões concordamos em ouvir o que eles tinham a dizer”, afirmou um funcionário de alto escalão que não está autorizado a falar sobre as conversações secretas.

Insatisfação é problema antigo

Um grupo de militares venezuelanos foi preso em maio, acusado de conspirar contra as eleições, nas quais o presidente Nicolás Maduro obteve um novo mandato. Segundo Maduro, eles estavam envolvidos em “uma conspiração financiada e comandada desde a Colômbia e alentada e promovida pelo governo dos EUA para dividir as Forças Armadas e, com uma ação publicitária e militar, tentar obter a suspensão das eleições de 20 de maio”.

Maduro não revelou a patente dos acusados. A advogada María Torres, do Foro Penal, disse que 11 oficiais, entre eles um major da Aeronáutica, foram acusados de “motim, instigação ao motim, delitos contra o decoro militar e traição à pátria”. Em março, Maduro rebaixou ou expulsou da Força Armada Nacional Bolivariana mais de 20 militares que manifestaram publicamente seu descontentamento com o governo e, segundo considerou o chefe do Estado, incitaram à rebelião. As sanções englobam 13 altos cargos militares como o general Raúl Isaías Baduel, preso desde 2009.

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