Brendan Smialowski/AFP
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Governo Trump disse a chefes do serviço militar que ficassem calados sobre protestos

Altos funcionários do governo orientaram chefes das Forças Armadas a não se pronunciarem sobre morte de George Floyd

Dan Lamothe, The Washington Post

04 de junho de 2020 | 02h00

WASHINGTON – Uma semana após a morte de George Floyd, o principal integrante da Força Aérea americana usou o Twitter para dizer que ele também era um homem negro, “que por acaso é o primeiro-sargento da Força Aérea”, e que poderia morrer da mesma maneira.

"Eu sou George Floyd...Sou Philando Castile, sou Michael Brown, sou Alton Sterling, sou Tamir Rice", escreveu Kaleth Wright, citando outros americanos negros mortos pela polícia. "Assim como a maioria dos pilotos negros e tantos outros em nossas categorias... estou indignado ao ver outro negro morrer na televisão diante de nossos olhos."

Na noite de segunda-feira, a resposta se tornou viral, com veteranos e militares comentando sobre da franqueza da postagem. Mas também foi um alívio, já que a maioria das autoridades militares permaneceu calada após a morte de Floyd sob custódia policial em Minneapolis, depois de ser algemado e dos protestos que se seguiram em todo o país.

Pelo menos duas vezes na última semana, altos funcionários do governo Trump no Departamento de Defesa orientaram os chefes das Forças Armadas a se manterem calados quanto ao tema, mesmo após alguns expressarem interesse em responder a um momento doloroso do país, segundo três oficiais de Defesa familiarizados com a discussão.

As autoridades, que falaram sob condição de anonimato por causa do tema delicado, disseram que o secretário de Defesa Mark Esper queria resolver o problema primeiro. No entanto, ele não o fez até terça-feira à noite, mais de uma semana depois.

"Eu, como você, estou firme na minha crença de que os americanos que estão frustrados, com raiva e procurando ser ouvidos precisam ter essa oportunidade", escreveu Esper em um memorando para as tropas americanas. "E, como você, estou comprometido em defender o estado de direito e proteger a vida e a liberdade, para que as ações violentas de alguns não minem os direitos e liberdades dos cidadãos cumpridores da lei."

Esper pediu aos militares para “permanecerem apolíticos durante esses dias turbulentos” – um tema que ele enfatizou desde que se tornou secretário de Defesa. Um alto funcionário disse que antes do memorando de Esper ser publicado, o Pentágono estava pensando em como resolver o problema.

"Acho que há uma pergunta em relação a como e quando, e em que nível, o departamento deve influenciar acerca do que se tornou uma questão emocional e política altamente carregada", disse a autoridade.

A orientação para os chefes permanecerem calados surgiu enquanto o presidente Donald Trump tenta usar cada vez mais os militares como uma ferramenta para reprimir os protestos e chama as pessoas envolvidas neles de "bandidos".

O Pentágono também está lutando contra questões em relação a sua própria insensibilidade, incluindo o desejo de manter inúmeras bases do Exército em todos os estados do sul com o nome de generais confederados.

Na noite de terça-feira, o governo Trump enviou novamente tropas da Guarda Nacional para Washington para complementar a polícia. As forças militares participaram da operação depois que as autoridades policiais usaram spray de pimenta e outras armas não-letais contra manifestantes nos arredores da Casa Branca, e helicópteros da Guarda Nacional pairaram em vários locais na altura dos telhados, em uma aparente tentativa de dispersar multidões com as rajadas de vento causadas pelo movimento das hélices.

A série de tweets de Wright foi publicada pouco antes das autoridades começarem a dispersar as multidões em Washington na segunda-feira e Trump anunciar que estava aumentando o papel dos militares na resposta. Wright disse primeiro a David L. Goldfein, general da Força Aérea, o que ele queria fazer, e Goldfein o apoiou, disse um oficial de Defesa.

O general também divulgou internamente um memorando para os comandantes na segunda-feira, chamando a morte de Floyd de "tragédia nacional" e afirmando que "todo americano deveria ficar indignado" pela conduta policial demonstrada no caso.

Goldfein escreveu que, embora "todos desejássemos que não fosse possível ocorrer racismo nos Estados Unidos", os comandantes precisam enfrentá-lo, segundo o memorando, cuja cópia foi obtida pelo The Washington Post.

"Como liderança da Força Aérea, refletimos e reconhecemos que o que acontece nas ruas americanas também ocorre em nossa Força Aérea", escreveu Goldfein. "Às vezes é explícito, às vezes é sutil, mas não somos imunes ao espectro de preconceito racial, discriminação sistêmica e preconceitos inconscientes".

O principal oficial da Marinha, Russell Smith, também comentou acerca das manifestações, escrevendo em uma mensagem online que "as manchetes trágicas e os subsequentes eventos turbulentos" afetam "todos os cidadãos de nossa grande nação".

"Como marinheiros, não podemos tolerar qualquer tipo de discriminação", escreveu Smith. "Precisamos falar ativamente e trabalhar para combater (o racismo) , pois ele trabalha contra os princípios de 'equipe' que nos tornam bem-sucedidos em combate."

Alguns outros generais também abordaram os protestos, incluindo o tenente-general James Slife, comandante do Comando de Operações Especiais da Força Aérea.

"Estou incomodado com os eventos em Minneapolis e o que isso significa sobre a nossa sociedade", escreveu Slife em um post no Facebook na sexta-feira. "E nossa Força Aérea é um reflexo de nossa sociedade, então, por extensão, esta é uma questão da Força Aérea. Seria ingênuo pensar que questões de racismo institucional e preconceitos inconscientes não nos afetam. Não podemos ignorar isso. Temos que enfrentá-lo. E para enfrentá-lo, temos que conversar sobre isso. "

Mas a maioria dos chefes não tinha conversado sobre o tema. Perguntado por que, na noite de segunda-feira, oficiais militares se recusaram a comentar ou encaminharam perguntas ao gabinete do secretário de Defesa.

Em um vídeo divulgado na noite de terça-feira, Goldfein e Wright discutem acerca das manifestações, com Wright dizendo que se preocupa se estará seguro se for parado pela polícia e Goldfein compartilhando que percebeu que "provavelmente não o entende completamente".

"Fiquei realmente indignado não apenas na semana passada", disse Wright. "Isso despertou muita fúria e muita raiva do passado, porque eu vi isso várias vezes."

A postura contrastava com 2017, quando cada um dos chefes condenou a violência e o racismo expostos por supremacistas brancos em uma passeata em Charlottesville, enquanto o Pentágono era dirigido pelo ex-secretário de Defesa Jim Mattis.

O Pentágono tem se esforçado para refletir a diversidade dos Estados Unidos em seus níveis mais altos. Enquanto 43% dos 1,3 milhão de militares das Forças Armadas são negros, apenas dois dos cerca de 40 oficiais de quatro estrelas são negros.

Eric Flowers, um coronel recém-aposentado do Exército, disse que quando o Pentágono não manifesta indignação com a maneira como Floyd morreu, "meio que existe uma mensagem implícita" para possíveis militares negros de que eles não são reconhecidos.

"Perdemos uma oportunidade ao não oferecer algum tipo de solidariedade por meio de comentários", disse Flowers, que é negro. "Perdemos uma oportunidade quando não reafirmamos que não é este o país pelo qual estamos pedindo às pessoas que lutem e apoiem."

Dana Pittard, um general aposentado do Exército de duas estrelas, disse que não acredita que os chefes das Forças Armadas sigam ordens ilegais em resposta às manifestações. Mas ele disse que não está surpreso ao ouvir sobre preocupações políticas entre os indicados pelo Departamento de Defesa.

"Eu odeio usar o termo ultralegalista, mas eles são indicados", disse Pittard, que é negro. "Eles não vão se afastar muito do (que o presidente recomenda)".

Pittard disse que deseja que o general Mark Milley, presidente do Estado Maior Conjunto dos Estados Unidos, não tenha participado da fotografia oportunista de Trump, na segunda-feira, quando o presidente visitou a Igreja Episcopal de St. John, perto da Casa Branca, depois que a polícia dispersou a multidão com balas de borracha e outras armas. Milley, vestido com seu uniforme de camuflagem, e Esper estavam entre os funcionários que caminharam com o Trump até o templo, que foi parcialmente queimado durante os protestos.

"Foi apenas uma imagem ruim para os militares estarem lá", disse Pittard.

Esper e Milley foram com Trump à igreja acreditando que iriam ver algumas de suas tropas, disse um alto funcionário de Defesa, falando sob condição de anonimato. Eles fizeram isso depois.

Kyle Bibby, ex-capitão da Marinha, disse que ficou desapontado com o silêncio de altos oficiais militares após a morte de Floyd, especialmente à luz dos relatos de nacionalismo branco nas Forças Armadas.

"Condenar o racismo e a brutalidade policial não é realmente uma questão partidária, certo?" disse Bibby, que é negro e agora trabalha com questões de justiça social para o Common Defense, um grupo progressista de veteranos.

"Os generais e almirantes não podem ignorar o que está acontecendo", afirmou. "Eles são líderes e são responsáveis por uma das instituições mais importantes deste país."/TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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